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Sobre coisas irritantes e inquietantes

Não levo eles, nem você, pra minha casa

Crédito: Miguel Ugalde/Stock.Xchng

Crédito: Miguel Ugalde/Stock.Xchng

 

Por Carmen Guerreiro

Semana passada eu acordei de madrugada depois de um pesadelo. Nele, eu estava dirigindo perdida em uma cidade e entrava em uma rua desconhecida. Meu marido estava no banco do passageiro. Um carro fechou o nosso e começou a atirar na nossa direção. Mas era um sonho, então os tiros pareciam vir de todos os lados. Eu reagi acelerando o carro e tentando escapar por um posto de gasolina, e não parava de gritar para meu marido se abaixar, mas acho que ele não conseguia, e que o carro não acelerava. Lembro do pavor que senti, do coração no esôfago, da impotência, do meu corpo paralisado de medo de que uma bala sequer tivesse atingido ele. Acordei com esse sentimento de pânico, ofegante.

Estava tudo bem. Mas estava mesmo? Minha aflição não coincidentemente aconteceu em tempos de medo de rolezinhos, gente amarrada e torturada em poste, âncora de jornal incitando violência, professora universitária ridicularizando pessoas no aeroporto por parecerem pobres, trotes universitários escrotos e humilhantes.

Tenho medo de ser assaltada, sim, ou de sofrer algo ainda pior. Meu sonho é a prova mais cabal disso. Tenho medo que, por estar no lugar errado na hora errada, uma pessoa importante para mim seja assassinada. Mas confesso que tenho o mesmo medo do tipo de pessoa reacionária que tenho encontrado, ouvido e lido. Gente que defende tortura, ditadura, morte, violência. Se todos tivessem o poder de executar a justiça, quais seriam os critérios? Você realmente confia na educação e no bom senso de todo mundo para achar que um país de justiceiros seria menos violento e mais justo?

Cito um exemplo bárbaro que pouco repercutiu, mas que me chocou profundamente. Na cidade de Pio XII, no Maranhão, um jogo de futebol no ano passado acabou com uma cabeça decepada e exibida em uma cerca. Isso porque um jogador não gostou de uma decisão do árbitro e deu-lhe chutes, e o árbitro revidou a agressão com uma facada. E como os torcedores reagiram? Invadiram o campo, espancaram, mataram e esquartejaram o árbitro. Alguma dessas pessoas estava certa? Isso é justiça? Se você acha que sim, não se incomode em ler o resto do texto.

A violência urbana é opressora, e eu entendo (não concordo com) o que os defensores de justiça com as próprias mãos, pena de morte etc. pensam: “porra, eu estou vulnerável a um babaca que quer me ameaçar e levar as coisas que conquistei, ou até mesmo minha vida. Isso é justo? Eu não posso me defender. E parece que só piora, porque aparentemente ninguém faz nada a respeito. E ainda vem gente politicamente correta falar que não é bem assim quando um ou outro consegue se defender? E aí, como fica?”

Em primeiro lugar, não se trata de passar a mão na cabeça de bandidos. Quem repete frases como “está com pena? Pega para criar” confunde empatia com simpatia, ponderação com conivência.

Então vamos passo a passo. Um menino de 15 anos assalta uma vítima na porta de casa, a pessoa reage e é morta. Uma tragédia, uma grande dor. Qual é a solução? Jogá-lo para apodrecer na cadeia, de onde ele vai sair mais escolado no crime do que entrou? Qual é a chance de que ele saia “reformado” de um lugar onde é torturado, massacrado, submetido a condições subumanas e obrigado a fazer parte de facções e manter amizades com outros bandidos para sobreviver? Poucas. A solução então é matá-lo? Isso resolveria a situação da violência? Me parece uma solução burra. Mesmo que ignorássemos os direitos humanos e fôssemos apenas pela lógica: alguém tem coragem de afirmar que matar todos os criminosos realmente acabaria com o crime, como se fosse uma espécie animal diferente e que deva ser erradicada?

Eu acho isso uma tremenda ingenuidade. Porque os defensores dessa “solução” ignoram que temos uma sociedade injusta que cria essas pessoas dia após dia, e que continuaria criando independentemente de haver zero ou um milhão de bandidos na rua. Eles sofrem desde o nascimento com a desestruturação do lar, drogas, violência, abuso, abandono, desprezo, indiferença, ganham pouco, vão para a escola e não aprendem, ou precisam abandonar a escola por algum dos motivos anteriores, vão ao hospital e não são bem atendidos, não têm condições mínimas de moradia (e muitas vezes de higiene), não têm acesso à cultura e ao esporte.

Se eu tenho pena? Não mesmo. Porque não se trata disso: trata-se de lógica. Logicamente uma parte dessas pessoas que são submetidas a uma paulada atrás da outra da vida vai acabar querendo revidar (mesmo que a intenção explícita não seja revidar) e se envolver com o crime, um mundo violento assim como a violência que sofreram desde o nascimento. Isso é uma justificativa para que alguns se tornem criminosos, sendo que a maioria não se torna? Não, não serve de justificativa. É apenas como a vida funciona, e negar isso não faz parar de acontecer. Seres humanos trazem uma carga genética de características sim, mas para mim são fortemente fruto do meio e de todas as suas experiências. Mas não é porque duas pessoas têm a mesma experiência que vão reagir da mesma forma a ela. O ser humano é um bicho complicado assim, e não adianta querer simplificá-lo. Dizer que os que entram para o crime simplesmente são “maus” não soluciona nada.

Tudo é esmola e vida fácil
O problema é que criam-se mecanismos para ajudar essas pessoas a quebrarem o ciclo de miséria e de violência, mas aí os reaças dizem que é assistencialismo barato. E se melhorássemos o sistema penitenciário, que hoje é não apenas ineficiente, mas contribui para perpetuar e não diminuir o crime? Então são mostrados exemplos de penitenciárias bem mantidas, como na Suécia ou Noruega, e o que dizem? Que assim é fácil, eles vão virar criminosos também para viver dessa mamata. O raciocínio deles é que os criminosos são naturalmente maus, que as pessoas são pobres porque querem e principalmente que qualquer auxílio para que se quebre esse ciclo é uma esmola, um presente de mão beijada, uma alternativa fácil.

Para mim a solução continua sendo agir na fonte do problema e melhorar a educação, acompanhada por outros serviços públicos de qualidade (saúde, habitação, transporte, incentivo às artes, cultura e esportes etc.). E para quem já está na criminalidade? Sou a favor de melhores condições no sistema penitenciário, o que inclui um intenso programa de educação, cultura e esportes, e também um rígido acompanhamento da reinserção do egresso na sociedade. É tão simples assim? Certamente não.

Para piorar, a visão míope do poder público e da sociedade reacionária parece não valorizar essas melhorias (especialmente a educação) além do discurso. Não parece querer a mudança a ponto de levá-la a sério e colocá-la em prática como prioridade. Rápido. De forma eficiente. Parecem não relacionar a falta desses serviços básicos à violência.

O problema é que isso tudo é bonito e funciona, mas demora. Demora muitos e muitos anos. E o medo da violência a gente sente todos os dias. Só que eu, sinceramente, não vejo uma solução mágica para isso. Por isso prefiro defender a educação do que me unir à barbárie que, como se não fosse hipócrita e violenta por si só, ainda não leva a uma solução.

Hipocrisia brasileira
Vejo muitas pessoas que falam como a vida é boa na Europa, como a sociedade é mais desenvolvida e a mente mais aberta. Como a qualidade de vida é superior. Mas boa parte dessas pessoas não percebe que sua cabeça retrógrada está muito mais alinhada a grupos de ultra conservadores do Oriente Médio e Ásia central que sistematizaram o apedrejamento de pessoas nos dias atuais. Segundo essa lógica, em um dia a população vai se unir para apedrejar um ladrão e, no dia seguinte, pode ser que a vítima seja uma mulher que quis estudar, ou que passou maquiagem escondida. E ela será apedrejada pela multidão com o mesmo furor.

É isso o que querem? Apedrejamentos? Ou um coliseu com leões? É essa a justiça do povo? E você confia nos critérios particulares dos justiceiros?

A violência não é a maior que já se viu
Muitos dizem ainda que a violência nunca esteve tão ruim, mas eu discordo. A humanidade já passou pelo império romano. Pela colonização. Pelas cruzadas. Pelas guerras mundiais. Pelo holocausto. Por diversos genocídios. Até pouco tempo atrás, desentendimentos eram resolvidos na ponta da faca (ainda são em alguns lugares), dependendo apenas da vontade e da percepção de uma pessoa que acreditasse que a outra tivesse feito algo que não a agradou. Poderia ser um marido ciumento que achava que a esposa dava trela para outros homens. Assassinato era comum e a impunidade mais ainda. Tempos de faroeste eram menos glamorosos e mais sanguinários.

E foram em grande parte os direitos humanos que permitiram que não vivêssemos em uma sociedade em que o mais forte, poderoso, rico ou qualquer versão disso ganhasse sempre (apesar de parecer às vezes que isso permanece, já mudou muito). Foi o que permitiu que mulheres lutassem por oportunidades iguais às dos homens, o que fez com que muitos homossexuais deixassem de viver mentiras por medo da exposição e lutassem por direitos iguais. E que negros começassem a ser tratados como gente e tivessem os mesmos direitos e oportunidades dos brancos.

Estamos longe de um ideal em termos de direitos e oportunidades para esses três grupos e tantos outros mais. Mas parece que uma parte dos brasileiros acha que o que eles têm já é demais. E parece absurdo fazer qualquer coisa para ampliar os direitos dessas pessoas, como se a única coisa que as separassem dos seus direitos plenos é um “defeito”, uma “doença”, uma “preguiça”, uma “maldade” que os torna menos merecedores da cidadania. Pois o povo brasileiro é racista, xenófobo, misógino, homofóbico, fanático. E diz que não é.

O que parece ter piorado não é a violência, é o nível reacionário das pessoas. Só que isso também não aumentou. A impressão é essa porque as redes sociais amplificaram a voz de todos, especialmente dos reaças. É isso o que explica os “haters” ou “trolls” que dominam os comentários da internet. Ouvi de um palestrante há duas semanas que não temos mais pessoas ignorantes e agressivas do que antes, mas que a internet colocou em evidência a porcentagem de pessoas ignorantes e agressivas que existem no mundo e que é alta, mas que ignoramos quando estamos na rua.

Enfim, eu tenho muito medo do crime, e mais medo ainda dos reacionários descritos aqui no texto. Afinal, a turma da justiça com as próprias mãos propõe usar as mesmas armas e os mesmos métodos que os criminosos, mas se acham diferente deles. E ainda parecem ter toda uma energia violenta reprimida, que soltam na forma de comentários odiosos na internet. Só que dizem que usariam essas armas e métodos, mais do que para o “bem”, para “executar a justiça”. E vocês acham que eu confio na justiça deles? Não, eu não confio.

Parte da minha solução para a violência foi me mudar para o centro de São Paulo, começar a andar mais a pé e de transporte público e trabalhar com educação. Não é muito e não é uma solução para todos, mas acho melhor do que ser refém do medo e simplesmente sair de um condomínio de carro blindado só para ir ao shopping ou ao trabalho e voltar.

E vocês? Preferem perpetuar uma sociedade de medo e violência ou sair dela, ainda que isso demore? Comentários no Facebook.

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