AnsiaMente

Sobre coisas irritantes e inquietantes

Trânsito: a culpa é de quem?

Por Carmen Guerreiro

Crédito: Matias Matias/Stock.Xchng

Crédito: Matias Matias/Stock.Xchng

 

A 23 de Maio, avenida arterial de São Paulo, estava absolutamente travada naquele domingo. Carros subiam no canteiro verde para fazer um retorno forçado na via expressa. “É assalto!” alertava um vendedor ambulante no farol da saída para onde consegui escapar, provocando medo e fazendo subir os vidros. Cabeças de motoristas buscavam enxergar freneticamente o que acontecia.

Mais um dia dirigindo em São Paulo. Achei que deixar o carro na garagem e só usá-lo quando estritamente necessário, como era o caso (com criança pequena para visitar os avós do outro lado da cidade no fim de semana), livraria minha vida desse estresse, mas não. Era domingo, e estava travado.

O caminho alternativo não estava diferente. Eu entraria à esquerda em um viaduto de mão dupla, também abarrotado de carros. O farol abriu para mim e aguardei abrir um espaço na via em que eu entraria para poder acelerar.

Só que uma motorista que já estava no viaduto viu que eu estava me aproximando e acelerou para não me deixar entrar, ainda que ela ganhasse com isso apenas 5 metros naquela triste jornada. Por isso fiquei parada fechando o cruzamento, e o farol abriu para os carros do viaduto, que foram obrigados a me contornar.

Meu sangue ferveu e eu não resisti. A motorista estava dirigindo com o vidro aberto e cara lacônica, falando no celular e fingindo não me ver. Mas era impossível, pois do jeito que ela me fechou estávamos muito próximas. Baixei o vidro e falei, sem gritar: “Você é muito egoísta, sabia?”

Ela olhou para mim um pouco relutante e eu continuei, tentando permanecer calma. “Você precisava ter me fechado e me deixar no meio do outro cruzamento?” Ela respondeu encolhendo os ombros e contraindo os lábios, como quem diz “fazer o quê, né?” O farol abriu e eu ainda tive chance de dizer, só porque estava com muita raiva: “Você não pode reclamar do trânsito. Ele é ruim por causa de pessoas como você.”

A mulher me ignorou e, por acaso, mudou de faixa, a minha acabou andando mais que a dela e ela voltou para trás de mim depois. Farol abre, farol fecha, estamos todos parados. Até que olho pelo retrovisor e vejo aquela mulher espumando de raiva. Quando o farol abriu de novo e eu andei, ela começou a buzinar e me xingar, só porque sim.

“Você devia ter xingado ela de filha da puta”, disse meu marido, do banco do passageiro.

“Não. Porque todo mundo se xinga. O que desconcerta as pessoas é falar em um tom de voz normal com elas e deixar claro o exato motivo pelo qual elas estão colaborando para um trânsito ruim”.

Casos como esse acontecem o tempo todo em São Paulo e em outras grandes cidades. Difícil encontrar quem anda de carro e não tenha uma história de estresse no trânsito a cada dia para contar. Reclamam que as pessoas são folgadas, que não dão passagem, que não sabem dirigir, que não dão seta, que andam devagar, que andam rápido demais, que fecham os outros, que passam no farol vermelho, que atrapalham o trânsito… Só que se todos reclamam de todos, é porque a maioria xinga, mas também contribui para um trânsito pior.

É fácil apontar para o outro o que ele faz de errado e esquecer de olhar para si mesmo. Não basta usar o adesivo de trânsito gentil e esperar que todos te respeitem se você também não respeitar. Então vamos rever algumas questões básicas de convivência entre automóveis?

➢ Mantenha o limite de velocidade se quiser andar na faixa da esquerda em uma avenida. Senão, você atrapalha.

➢ Não faça pressão no outro e fique dando farol alto e seta na faixa da esquerda se você quer passar e o outro já está no limite de velocidade. Você está errado e o outro não tem nada a ver com isso.

➢ Se uma faixa está fechada ou duas vias se encontram sem farol, a regra é simples: entre um de cada lado por vez.

➢ É normal precisar reduzir a velocidade para procurar um número ou uma vaga de estacionamento. Mas que tal dar seta e ocupar uma faixa só?

➢ “Ninguém me dá passagem, então eu também não vou dar.” Mas que inteligente! Assim o problema vai ser resolvido, né?

➢ Não buzine para o carro que parou na faixa de pedestres. Não dá para culpar quem anda nas ruas por demorar para entender que está recebendo a passagem – não estão acostumados! Se todo mundo começar a parar, isso se torna mais natural para motoristas e pedestres.

➢ Fique na sua faixa. Você que comprou uma SUV (aqueles utilitários grandões) e acha que seu carro é gigante e não cabe em uma só faixa, não se preocupe, ele cabe.

➢ Você não precisa abrir uma curva até a faixa vizinha, como se fosse uma carreta.

➢ Fique atento ao farol. Quando ele fica verde, se você demora para andar pode até conseguir passar, mas outros vão ficar parados por sua causa.

➢ Se você não tem pressa e quer andar muito, mas muito devagar, fique à direita e na sua faixa.

➢ Andar no acostamento e na faixa exclusiva de ônibus faz de você um grande babaca. Não espere a compreensão dos outros se não te deixarem entrar depois.

➢ Taxista: a rua é seu local de trabalho, mas não significa que é mais sua que dos outros. Pegue e deixe seus passageiros em um local apropriado e sinalize isso com seta.

➢ Aliás, que tal todo mundo usar a seta?

Eu poderia listar mais uma centena de pílulas de convivência no trânsito, mas basta dizer que, para funcionar, você precisa se colocar no lugar do outro e entender que vai ter que dividir a rua com outros milhões de motoristas. Não adianta reclamar do trânsito sem parar para pensar o que você também faz para deixá-lo pior. Ou então venha para o grupo das pessoas que têm carro mas preferem deixá-lo na garagem só para os momentos em que ele realmente é necessário.

Anúncios

Informação

Publicado em 18/10/2013 por .
%d blogueiros gostam disto: