AnsiaMente

Sobre coisas irritantes e inquietantes

Sobre recalques e puritanismo

Por Carmen Guerreiro

Ladybugs Mating 2

 

Em maio eu visitei uma exposição fascinante no Museu do Sexo, em Nova York, que apresentava basicamente como a internet mudou a maneira das pessoas pensarem sobre, falarem de, pesquisarem e fazerem sexo. Entre outros fenômenos (como uma transcrição completa das conversas por celular do deputado americano Anthony Weiner que deflagraram um escândalo sexual), a exposição principalmente mostrava os resultados de uma pesquisa feita pelos neurocientistas Ogi Ogas e Sai Gaddam e publicada no best-seller A Billion Wicked Thoughts.

Os pesquisadores destrincharam 400 milhões de buscas feitas no Google e descobriram que 55 milhões delas estavam relacionadas a algum tipo de erotismo. Eu escreveria um texto inteiro falando das descobertas interessantíssimas, mas vou me limitar a algumas: os homens preferem mulheres acima do que abaixo do peso, pornografia com mulheres acima de 40, 50 e 60 anos é mais popular do que você imagina (mesmo entre jovens), e os termos mais pesquisados não são aqueles que você pensa.

Por isso, saí da exposição com algo na cabeça: existe um mundo de tudo aquilo que achamos que os outros gostam e pensam, e o mundo real, aquele do indizível, mas infinitamente mais honesto. Esse é o mundo que as pessoas confiam à internet e não aos amigos.

A internet é um ambiente que na maior parte das vezes garante certa privacidade, por isso se tornou um grande repositório de angústias, segredos, curiosidades, fetiches e fantasias. É um meio nem sempre eficiente, mas confiável, para satisfazer desejos. E o melhor de tudo: sem que o mundo precise saber. A internet é uma forma segura das pessoas satisfazerem suas fantasias sem se exporem ao cruel julgamento alheio.

É comum ouvir que a maior fantasia dos homens heterossexuais é transar com duas mulheres, que mulheres devem ser gostosas (leia-se magérrimas com peitos/bunda) e novinhas para serem desejadas, que uma atriz pornô é o sonho de todo homem. Sobre transgêneros, orgasmo feminino, sexo na terceira idade, ouvimos quase nada – é um tabu. Pois de nada me surpreende ver que aquilo que é mais pesquisado na internet resume tudo sobre o que não se fala. E aquilo que se enche a boca para falar não é tão popular assim. Lembro que ménage à trois não estava nem no top 20 das buscas. E que a busca por vídeos amadores era um dos top 5, se não me engano.

Isso leva a uma conclusão óbvia: poderíamos ser mais honestos com nós próprios e com os outros sobre algo tão intrínseco ao ser humano.

Esse assunto é inesgotável e envolve inúmeros fatores como religião, cultura, dinâmica familiar. Mas quero explorar o fator público do sexo. Por que podemos mostrar mulheres seminuas na TV aberta, em horário em que crianças estão assistindo (e isso é considerado totalmente normal), e as sex shops precisam ser algo obscuro, pintado de preto, escondido; lugares em que a maior parte das mulheres (e alguns homens) tem vergonha de entrar e, se entram, tem medo até de que alguém veja seu olhar perdurar mais do que um segundo em um brinquedinho, fantasia ou capa de filme?

Sex shops no Brasil, onde existem, têm a conotação de algo proibido e sujo. E só reparei isso quando entrei em uma loja do tipo nos Estados Unidos há quatro anos. Era uma loja com tudo branco, design moderno, iluminada, com janelas de vidro para a rua e produtos bem posicionados e com design atraente. A vendedora vestia roupas normais e agia naturalmente. Era uma loja como outra qualquer (com preços menos absurdos que os brasileiros, mas acho que isso independe do ramo da loja), e os clientes não ficavam constrangidos com a presença dos outros. Lembro que perguntei de um produto sobre o qual tinha lido e ele havia acabado, mas tinha uma lista de espera! Imagine algo assim aqui?

Então acho que aquela história de que o sexo é tratado com mais naturalidade no Brasil é uma grande balela. São raros os pais que conversam abertamente sobre sexo com filhos. Entre as mulheres, já é tabu falar de detalhes do sexo. Daquilo que é considerado fetiche, então, é proibido – mesmo entre grandes amigas (é claro que estou falando de uma maioria, e não de todas). Entre os homens, é esperado que se fale do sexo, mas é um assunto igualmente tabu: espera-se que um macho alfa olhe e comente sobre as mulheres gostosas na rua, e que fale sobre suas proezas sexuais. Mas qualquer interesse por algo fora da curva é motivo de tamanho escárnio que os homens raramente arriscam comentar disso com outras pessoas. Resultado? Ficam todos digitando freneticamente na internet suas inseguranças e desejos na penumbra de seus quartos no silêncio da madrugada, sem deixar que ninguém descubra.

Se o sexo fosse menos tabu, talvez as pessoas fossem melhor resolvidas sexualmente e todos fossem – pelo menos um pouco – mais felizes. Vejam o tal livro 50 tons de cinza. Não li, não me despertou grande curiosidade (talvez eu ainda leia, não sei), mas vi uma série de mulheres lendo o tal livro no metrô. Para uma população que, em sua maioria, lê livros de autoajuda e religião (quando lê), acho um grande avanço.

O mérito desse livro, ainda que eu não possa opinar sobre a qualidade literária dele, é ter sido um best-seller. Por isso sabe-se que foi muito vendido, lido, muitas pessoas que você conhece já leram e, por isso, ele não é proibido. E isso faz com que as mulheres sintam que podem lê-lo no metrô. Eu acho o máximo! Mulheres lendo sobre sadomasoquismo (e se interessando, no mínimo, por saber do que se trata) em público? Se esse livro fez com que mais pessoas se permitissem experimentar novas coisas na cama (ou fora dela), ponto para ele.

Me parece muito bizarro que o Brasil tenha mulheres seminuas (ou nuas) desfilando no Carnaval e se orgulhe disso, mas aí na hora de conversar sobre sexo honestamente, de repente são outros pesos e outras medidas.
Brasileiros adoram falar que europeus e americanos não têm ginga, mas ficariam surpresos se percebessem que, enquanto sociedade, eles são mais abertos para discutir sexualidade e muito menos reacionários do que a gente.

Eu sugiro que cada um questione suas palavras proibidas, seus assuntos desconfortáveis, confrontem a fantasia recalcada, o fetiche oprimido, e pensem em ser mais felizes. Deixe aquele que te julga morrer frustrado (e morrer de inveja).

Se você tem algo a dizer, venha aqui.

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