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Sobre coisas irritantes e inquietantes

Junk food não é sempre o mais fácil. Nem rápido.

Por Carmen Guerreiro

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Semana passada eu estava em um voo, daqueles que duram a noite toda, e na hora do café da manhã (umas 5 horas da matina) a comissária traz nada mais, nada menos do que uma mini pizza. Fiquei indignada que aquela fosse a minha única opção (mentira, podia escolher hot dog também). Não é culpa da tripulação, é claro, por isso eu simplesmente não disse nada. Arrisquei duas mordidas e passei a pizzinha para o meu marido. Não me levem a mal, eu amo comer. Aliás, gosto tanto de comer (de tudo) que preciso me controlar.

Mas aquilo me despertou a atenção para algo que tenho pensado bastante desde que comecei minha reeducação alimentar há uns oito meses e me vi presa em uma armadilha atrás da outra. Quando você vai a uma festa de criança, o que tem para comer? Salgadinhos. Quando bate o desespero e a geladeira está vazia, o que é mais fácil de fazer? Pedir uma pizza. A maior parte das refeições congeladas é saudável? Não. Se você vai a um bar com os amigos e quer petiscar algo, quantos estabelecimentos têm opções saudáveis?

Alguns diriam que tudo isso indica que precisamos desacelerar (princípio do movimento Slow Food), porque só assim comeremos de uma maneira saudável. Eu tendo a concordar com isso na teoria – e, por isso, em partes. Isso porque uma mudança como essa exige tempo. Mas e hoje, o que eu vou comer? E amanhã? Preciso esperar tudo desacelerar para conseguir ter um estilo de vida mais saudável o quanto antes? Desacelerar é uma das minhas metas no médio e longo prazo, mas meus exames de sangue do ano passado pediam atitudes imediatas para baixar o colesterol. No entanto, me parecia, no início, que tudo o que eu precisava comer para equilibrar meu corpo precisava ser muito planejado (e com muita antecedência) para dar certo. Comer na casa dos outros era sinônimo de sair do regime. Ir a uma festa, confraternização ou reunião, idem. Chegar em casa tarde e com preguiça de cozinhar? A pilha de folhetos de delivery nunca ajuda.

Aí chegamos à questão principal: junk food é mais barata e mais disponível realmente porque é mais simples e rápida de fazer? Eu acho que não. Imaginem só o trabalho que dá fazer uma coxinha de frango, por exemplo. Eu nunca fiz uma, mas posso me atrever: cozinhar o frango, temperá-lo, desfiá-lo. Fazer a massa, montar os bolinhos no formato de coxinhas, empaná-las. Fritá-las. Você vai dizer que compra a coxinha pronta e por isso é rápido. E esse é o meu ponto. Se podemos comprar pronto, por que não há mais opções saudáveis e prontas?

Eu sei que existem fast foods hoje em dia de wraps, saladas e uma porção de coisas saudáveis. Mas são o dobro do preço das porcarias! E são minoria (em São Paulo, imagine em outras cidades). Será que é porque são feitas de ingredientes mais delicados e que estragam mais rapidamente? Ou será que, aliado a isso, existe aquilo que não é dito, mas está implícito: se você quer se alimentar bem, precisa pagar mais por isso? Será que precisam cobrar mais caro porque a procura é menor? Com isso, o problema de fome no Brasil não se compara ao da obesidade. Hoje, metade (isso, metade!) dos brasileiros está acima do peso e, entre essas pessoas, 15% são obesas. Enquanto isso, 11 milhões passam fome, ou seja, cerca de 6% da população (menos da metade da quantidade de obesos).

E se não há procura e interesse das pessoas, não deveríamos criar esse interesse nas crianças desde cedo? A competição é dura, eu sei. Vejo isso por causa da minha enteada. Se mandamos uma opção saudável, como uma fruta, ela não come e ainda pede a comida dos amigos. Não é um problema isolado. Na última reunião de pais que fui, a professora suplicou aos pais que pelo menos não mandassem salgadinhos todos os dias. Encontramos um meio termo, o iogurte. Mas é uma batalha árdua.

Só que nem sempre os salgadinhos existiram e hoje não existem em uma porção de lugares. Você acha que seu filho pequeno nunca comeria salada ou peixe. Mas e as crianças que nascem em tribos e clãs isolados de cidades e que só têm isso para comer? Elas certamente comem e devem gostar daquilo.

Isso me leva à seguinte conclusão: o fato de existirem hoje muito mais opções pouco saudáveis do que saudáveis é uma escolha nossa. Logo, o poder de mudar isso está em nossas mãos. Você quer continuar pedindo pizza em casa e comendo batatas fritas nos bares? Eu também! Mas não sempre. E também acho justo e razoável que haja ao menos a opção de comer alimentos saudáveis pelo mesmo preço e com a praticidade das junk foods.

Por isso sou super fã do Jamie Oliver e do trabalho que ele realiza em diversas frentes para fazer as pessoas comerem melhor, tanto nas escolas, com o Food Revolution (que tenta mudar o que é servido nos refeitórios de escolas americanas e inglesas), quanto para as pessoas em casa, com programas e livros a exemplo do 15 minutos e pronto, em que ele ensina a preparar comidas sofisticadas e nutritivas a um baixo custo e de maneira prática e rápida.

Aliás, estou aqui escrevendo “saudável”, mas essa palavra me incomoda. Porque temos a ideia de que comida saudável é só salada e legumes, e que isso é sem graça. Em primeiro lugar, acho que podemos comer de tudo, basta haver equilíbrio. Eu sou fissurada por queijos, por exemplo (vide o problema de colesterol). Agora me limitei a comer um queijo amarelo por semana. Bife: precisa mergulhar no óleo? Não! Batata frita: fica uma delícia preparada no forno com um fio de azeite. E os legumes? Eu arrisco a dizer que quem não gosta provavelmente nunca experimentou um bem preparado. Com salada, idem. Com os ingredientes frescos, combinação de temperos certa para o seu paladar e um bom preparo, adeus preconceitos.

Fui a um restaurante tibetano há uns 10 dias e foi uma experiência tão incrível que me convenci de algo que, depois que pensei, fiquei com vergonha de não ter concluído antes, de tão simples e óbvio que é: é possível gostar de qualquer alimento, só depende o contexto e da forma como ele é preparado.

Comida é algo tão versátil que seria muito triste deixarmos que alguns alimentos ficassem de escanteio só porque não nos arriscamos a prepará-los de uma maneira gostosa, muitas vezes por puro preconceito. Eu sempre vejo caras tortas olhando para mim em um churrasco quando trago abobrinhas fatiadas. Mas depois de passarem por um tempero caprichado e pela brasa da churrasqueira, as pessoas pedem mais.

Vamos parar para reconsiderar nossos hábitos. Pensou em encomendar 200 salgados para a festa do seu filho? Por que não fazer mini sanduíches com ingredientes frescos e que as crianças gostem? Por que não fazer seus próprios nuggets de frango assados? Vamos demandar opções mais saudáveis em bares, restaurantes, refeitórios, supermercados e redes de fast food. Vamos aprender a usar ingredientes simples e baratos e combiná-los de maneira rápida para inclui-los no nosso dia a dia corrido. É um processo que já começou, mas nós podemos ajudá-lo a crescer.

Em resumo: dá para comer melhor. O que atrapalha isso são os hábitos ruins, a preguiça de mudá-los e a falta de informação. E você, sente falta de mais opções saudáveis na sua alimentação? Quais as principais dificuldades que sente para mudar seus hábitos? Comente aqui.

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