AnsiaMente

Sobre coisas irritantes e inquietantes

Trabalho no tempo do computador (e das cavernas)

Crédito: IBM ARCHIVES

Por Carmen Guerreiro

Em primeiro lugar eu queria me desculpar pela ausência. Período para lá de turbulento! Espero que ainda tenha alguém aí do outro lado. Vamos lá:

Fui a uma entrega de prêmio nesta semana com el maridón e ele encontrou uma pessoa com quem trabalhou na Folha de S.Paulo há milênios. Aí aconteceu o que acontece durante quase todo diálogo de encontro no meio jornalístico, aquela frasezinha maldita e inocente que as pessoas não conseguem segurar na boca: “E aí, onde você tá?” Acontece que a moça continuava na Folha, e meu marido, que está em um período de transição como freelancer e montando a própria empresa, comentou: “Estou frilando.” O que seguiu isso é mais um clássico: a cara de dó, meio desconcertada, mesmo que por um segundo, de quem acha que deu um fora. Como se ela se sentisse culpada porque, na sua cabeça, o que está fazendo profissionalmente é indiscutivelmente superior. É a cena clássica da solteira bem resolvida encontrando uma velha amiga na rua que está casada. “E aí, você casou?”, pergunta a casada. “Não”, diz a solteira. Cara de dó. “Não se preocupe, você vai encontrar alguém.” E quem disse que a solteira quer casar? E o que garante que ela não é mais feliz do que a “amiga” casada?

Parece que algumas pessoas, quando sentem que fazem parte de algo louvável e poderoso (casamento, empresas de renome…), acham que os meros mortais são pessoas que não tiveram o mesmo sucesso delas. E não param para perceber que as instituições que representam estão ruindo e precisam de mudanças urgentes.

Minha mãe sempre quis, desde minha época de faculdade, que eu trabalhasse em um jornal. Isso realmente faria com que ela sentisse muito orgulho de mim. Mas, para sua decepção, eu nunca quis trabalhar em jornal. E quando ela insiste, eu repito que prefiro mudar de profissão a trabalhar em um jornal. Tenho os mais variados motivos: não quero me matar por um trabalho que é só um trabalho, quero priorizar minha família e minha vida pessoal (quero fim de semana e feriado!), não tenho vocação para ser política e não tenho saco para disputas de ego, veladas ou não. Esses são meus motivos, por isso não acho ruim que alguém trabalhe em jornal, apenas não quero isso para mim.

Aí chegamos em um grande entrave. Enquanto parte das pessoas tem como sonho fazer parte de algo poderoso, de nome, de status (e que promova, de certa forma, estabilidade), outras querem quebrar com antigas formas de fazer as coisas, querem inovação, querem ousar, criar e empreender. É arriscado? Muito. É instável? Terrivelmente. Tem dias que acho que vou ter um enfarto antes dos 30. Afinal, é muito melhor subir a Rodovia Imigrantes asfaltada e de carro do que desbravá-la com um facão montado em uma mula. Mas a gratificação… Ah, a gratificação.

Apostar em uma vida como freelancer faz parte dessa mudança no mercado de trabalho que temos vivenciado. Se ela é cruel em muitos aspectos, recompensa em outros: comer em casa, fazer os próprios horários, trabalhar com autonomia, evitar trânsito, investir na qualidade da sua vida. Passar mais tempo com a família do que com os colegas de trabalho! Uma escolha pessoal.

Mas independentemente de fazer ou não essa escolha, é preciso reconhecer que as relações de trabalho não são mais como eram antes e não devemos nos sentir culpados por não cumprir a ideia de emprego estável dos anos 50 dos nossos pais e avós. Na verdade, devemos nos sentir felizes.

Eu desisti de manter uma agenda de telefones com contatos profissionais, porque ninguém mais fica em um emprego por mais de 1 ano. Quando completam dois ou três anos, já falamos: “caramba, você está lá faz tempo.” Por outro lado, se a falta de reconhecimento de nossas famílias e outras pessoas conservadoras é meramente irritante, a falta de reconhecimento do governo é preocupante.

Uma pessoa que vive de frilas hoje precisa, em português claro, pagar para trabalhar: abrir uma empresa (no mínimo R$500), emitir nota fiscal (pagando impostos e contador), abrir uma conta de pessoa jurídica só para receber (muito, mas muito depois da entrega do trabalho), não ter direito a férias ou 13º salário (o que dirá fundo de garantia), arcar com os custos de telefone e transporte que usa para o trabalho. Licença-maternidade? Esqueça. Plano de saúde? Só do próprio bolso. INSS? Pague o próprio e se garanta. De quebra, vive na incerteza de ter um mês bom (e enlouquecedor) com muito trabalho e um mês de seca (e enlouquecedor), por outro.

Minha pergunta é: precisa ser assim? Porque ser registrado tem seus N problemas também. Por que precisamos viver sob as leis trabalhistas de uma época em que nem se usava computador, peloamordedeus? Por que não se cria condições adequadas de trabalho, reconhecendo que empreendedores individuais e freelancers fazem parte de uma real tendência do mercado de trabalho e essas pessoas precisam ser reconhecidas e valorizadas?

Caminhamos para um modelo fantástico e inovador, em que as pessoas podem trabalhar da forma como produzem melhor – sem horarios rígidos, sem a necessidade de estar todos os dias em um escritório, sem formalidades de vestuário ou saudações artificiais nos emails (por que as pessoas ainda usam “grato” e “cordialmente”?). Por que isso precisa ser um nado contra a maré?

Existe também uma forma de atuar não como freelancer e pequeno empreendedor, mas dentro de uma grande corporação ou instituição tradicional para transformá-la em algo diferente. E isso só acontece com inovação, mas inovação é muito bonita no papel. Que porcentagem dos chefes apostam em um funcionário com esse perfil e estão dispostos a transformar a empresa no seu cerne? Quantos casados querem fazer do seu casamento algo além do estereótipo da prisão?

Há alguns meses eu estava no metrô de São Paulo e ouvi a conversa de três pessoas do meu lado. As três falavam mal do local onde trabalhavam. Uma mulher, especialmente, disse que o chefe fez um comentário maldoso dela na frente de todos, insinuando que ela estava indo demais ao banheiro (e que isso implicitamente significava que ela era uma funcionária que não queria trabalhar, e era portanto preguiçosa). Controlar o quanto uma pessoa vai ao banheiro? Mesmo? Bater ponto? Bloquear o Facebook? Que tipo de profissional queremos criar com esse tipo de mentalidade? Socorro! Mas e essa funcionária? Quais são as chances de ela comentar maldosamente na hora do café que uma colega chegou de novo atrasada?

Você quer fazer o nó da gravata ou criar o próximo Google? Opine aqui.

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