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Sobre coisas irritantes e inquietantes

O que é arte?

Por Carmen Guerreiro

Crédito: Carmen Guerreiro - Arquivo Pessoal

Eu tirei essa foto em 2008, em uma exposição em Praga, na República Tcheca (está escrito, alternadamente, “isso é uma obra de arte” / “isso não é uma obra de arte”). A maior lição que tirei dela é algo que eu sempre senti, mas nunca tinha conseguido expressar: o sentimento de que a arte não significa a mesma coisa para todos. E diferentes tipos de arte tocam as pessoas de diferentes formas.

Lembro-me de quando minha mãe me levou para visitar a Bienal de Arte de São Paulo em uma de suas edições nos anos 1990. Eu era relativamente pequena, mas é até hoje uma das exposições que mais me marcou. O tema era a guerra, e me lembro que havia instalações interessantíssimas, como um lançador de pucks (a “bola” do hockey) que simulava uma arma. E você ficava grudado no vidro do outro lado, para sentir 1% do que é ter algo assim vindo em sua direção. Aí eu lembro da última Bienal que fui, em 2008 (acho, ou foi 2006), em que saí brava. Brava porque senti que minha ida até lá foi uma grande perda de tempo. Brava de ver obras que falavam consigo mesmas, não comigo.

Mas isso é obviamente relativo. E a ideia do post partiu disso. O que me toca como arte, seja ela artes plásticas, literatura, música, dança, fotografia etc., não é o que toca o outro. E por isso criticar arte para mim é tão difícil. O que faz de uma obra de arte “boa”, afinal? Isso é muito polêmico. Porque durante nossa formação escolar, aprendemos quais são as referências e, automaticamente, não somos impelidos a questioná-las, mas a acatá-las e admirá-las. Passamos na educação pelos renascentistas, impressionistas, expressionistas, surrealistas e mais n outros… E nos dizem o que é “bom”.

E o que é bom? Eu vi pessoalmente muitos quadros do Picasso e aquilo não mexeu comigo. Não significa que não são bons. Picasso foi um pintor único e revolucionário, e precisa ser admirado e reconhecido pelo que fez e representou. Mas não é por isso que todo mundo precisa se sentir movido pelas suas obras. Temos que separar o nosso gosto da importância do artista. Mas atenção: o que não mexe com você não é necessariamente ruim. Só não mexe com você e ponto. Já ouvi muitas pessoas falando o mesmo da Monalisa, com um certo sentimento de culpa: que se prepararam e foram ao Louvre para conferir o tal sorriso, mas que não se emocionaram com o quadro. Isso quer dizer que sejam ignorantes? Ou que o quadro seja ruim? De jeito nenhum!

Então por que nos sentimos obrigados a citar e gostar de algo só porque é considerado um ícone e colocado em um altar pela maioria (ou pelos especialistas)?

Arte sacra também não mexe comigo. Passei três horas andando pelo museu do Vaticano e, depois daquilo, jurei para mim mesma que não iria mais a um museu do tipo só porque “tinha que ir”. Mais uma vez, não é porque todo o estilo é ruim. Mas porque não me identifico com aquilo. E deveríamos apreciar a arte que nos dá prazer, certo? Conhecer de tudo, mas prestar homenagem, visitar, comprar cartazes etc. daquilo que condiz com o nosso gosto. E isso é totalmente subjetivo! A arte que te comove é a que entra, se mistura com suas experiências, seus valores, sua visão de mundo, seus medos, suas esperanças e que, dessa “reação química”, cria um significado único para você, como uma impressão digital.

Os impressionistas me emocionam mais do que palavras podem dizer, por exemplo. Mas sei que, para muita gente, aquilo não diz nada. E tudo bem. Desde que reconheçam a importância técnica e histórica deles. Para mim, além de eu admirar a quebra de paradigmas que eles representaram, os traços e temas me comovem e mexem com meus sentidos. Para tantos outros que também se comovem, representa algo ainda diferente.

Uma coisa são os fatos, outra é a emoção que cada um sente (ainda que os fatos tenham diferentes interpretações).

Na literatura, nunca fui aquela fã fervorosa de Guimarães Rosa (é capaz de muita gente parar de ler por aqui, de raiva de mim). Acho chato. Mas não posso dizer que ele não mudou a literatura brasileira, que ele escrevia mal, que ele não foi tão importante assim. Entre os clássicos, prefiro (e amo) Machado de Assis, e sei que muita gente acha ele chato. Indo para a cultura pop, um bom exemplo é falar de Madonna e Michael Jackson. Independente de você gostar ou não, é preciso reconhecer o papel deles na história da música. Mas não precisa gostar. Nem precisa dizer que é “um mico” gostar. E tem muita gente que gosta porque gosta, e não pelo papel que eles representaram na música.

Porque a pior coisa que se pode dizer sobre arte é que “você não gostou porque não entendeu”. A discussão disso daria outro post!

Outro caso é de quem se interessa por obras cuja importância, relevância e qualidade são altamente questionáveis. Aí eu acho que o simples critério é gostar e saber defender o seu gosto. Só que aí você não pode argumentar que é importante historicamente, ou revolucionário. Ou que, tecnicamente, seja uma referência. Mas se dê o direito de gostar do que mexe com você. Eu acredito piamente que cada um de nós conserva (ou já conservou) algum gosto que, ao olho alheio, é considerado “trash” (especialmente em música e cinema).

Por isso, me irrita quem impõe seus gostos e desgostos artísticos e torce o nariz para quem pensa diferente. Acreditem, sou jornalista. O que mais existe nessa área são determinações categóricas do que é ou não é bom (e o desdém agressivo do grupo para quem não concorda). Na faculdade você ouve pessoas defendendo categoricamente que Chico Buarque é Deus e único na Terra, e outras falando que ele é um lixo e que deveria ser apedrejado. Poucos por lá discutem sua importância histórica e artística e falam, no fim, “eu gosto”, ou “eu não gosto”. Essa separação é rara.

Durante muito tempo, achei que eu simplesmente não gostava de arte contemporânea (vide a experiência na Bienal). Mas depois entendi que o tipo de arte atual que me chama a atenção é aquele que interage com o espaço público e retrata a forma como as pessoas vivem e se relacionam no mundo maluco em que vivemos. Aquela que não precisa da leitura de um especialista para entender. Nesse contexto, a fotografia, o grafite e o uso de materiais inusitados para compor artes plásticas são fundamentais. Sei que tem muita gente que acha que isso não é arte. Mas o que é arte, afinal (voltamos à foto inicial)?

Aqui está uma listinha de referências que venho guardando (não são necessariamente uma lista do que mais gosto, mas de iniciativas que vi e me interessei). São trabalhos que me chamaram a atenção seja pelo material ou técnica escolhidos, pela apropriação do espaço público, pelo uso das coisas banais e cotidianas para criar, ou pela relevância e representatividade em relação ao contexto histórico, social, cultural e econômico em que vivemos.

Lindas intervenções no espaço público feitas pelo artista francês Oakoak

O mundo paralelo de papel kraft de Elly MacKay

Uma brilhante intervenção matemática urbana

Grafite feito em um navio abandonado

Cidades em madeira

Genial intervenção na Espanha sobre a crise

A arte de rua do russo Pavel Puhov

A “limpeza” que é arte, do Alexandre Órion

Retratos de urina e sangue

Imagens de ácido, vinho e fumaça

As gotas d’água do fotógrafo Markus Reugels (e aqui também)

Retratos feitos com cubos mágicos, de Pete Fecteau

Brian Dettmer e suas esculturas em livros

Os retratos “esfumaçados” de Steven Spazuk

Pintura a dedo de Judith Braun

Arte com sal de Motoi Yamamoto

Google Street Art Project

O novo sentido do rolo de papel higiênico, por Anastassia Elias

Os desenhos em 3D do japonês Nagai Hideyuki

Pintura em latinhas…

O incrível painel em homenagem a Niemeyer

O inusitado uso de grama para fazer retratos

Arte no Instagram da turca Çiler Geçici

Arte grampeada

Uma intervenção artística familiar

Retrato com digitais

O über realismo de Diego Fazio

E mais um milhão de outros trabalhos que descobrimos diariamente.

E para você? Qual é a sua arte? Você já se sentiu compelido a apreciar uma obra de arte só porque todo mundo gostava? Opine aqui.

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