AnsiaMente

Sobre coisas irritantes e inquietantes

O que é dia da mulher?

Por Carmen Guerreiro

Crédito: christiane wilke / Foter.com / CC BY-NC-ND

Crédito: christiane wilke / Foter.com / CC BY-NC-ND

Recentemente, tive uma troca de emails muito interessante com uma leitora do blog. Ela leu, com muito interesse, diversos posts do AnsiaMente, até chegar a um dos primeiros, “O que eles querem é uma estagiária”. Nele, eu falo sobre o machismo travestido de camaradagem a que os homens incrivelmente ainda são submetidos. Uma espécie de ritual uga-uga sem sentido que muitos só participam pela preguiça de discordarem publicamente e acabarem bancando os chatos (pegando leve, porque em geral são taxados de “viados” – com “i” mesmo).

A questão é que, no fim do texto, eu falava que não admitia o fato de uma pessoa ser contratada para ser estagiária apenas porque é mulher, apesar de eu não ser feminista e achar o Dia da Mulher um saco (quem entrar lá vai ver que o texto foi alterado desde então, já explico o porquê). O que escrevi foi uma grande besteira, porque foi uma afirmação jogada de qualquer jeito sem qualquer reflexão ou explicação – e que, do jeito que estava lá, não refletia minha real opinião sobre o assunto e ainda por cima virava um clichezão de gente do contra. E por isso a leitora me questionou: me achou uma pessoa esclarecida pelo que leu nos outros textos, mas anti-feminista? Dia da Mulher um saco? Por quê? Ela achava inacreditável que eu de fato fosse contra a igualdade de gêneros. E ela estava certa.

No momento em que reli o texto, me deu o clique. E resolvi escrever sobre isso aqui, porque acho que o blog é justamente sobre a necessidade da gente parar para se questionar, e foi isso que fiz comigo mesma (e faço o tempo todo, fico me cutucando).

O Dia da Mulher é hoje. Eu acho um saco? Sim. Mas de jeito nenhum pelas pessoas que o criaram, ou pelo que ele representa de fato. Mas pelo seu lado banal, que é o que a gente mais vê por aí  (não para todos, é claro). Acho um saco ver um monte de mulheres submissas, ou aquela que você sabe foi responsável por criar um filho machista, postando fotos de rosas com mensagens piegas no Facebook. Mulheres que acham bonito receber flores nesse dia, que dão parabéns às colegas, mas que não fazem nada de fato para derrubar as barreiras da desigualdade entre os sexos.

Afinal, por que muitas dessas mulheres acham que é seu dever parar de trabalhar quando o filho nasce, e desistir da sua carreira? Por que muitas delas já apanharam do companheiro ou foram humilhadas e sofreram em silêncio? Quantas já disseram para a filha pequena que ela não poderia brincar com carrinho ou usar azul, porque isso é “coisa de menino”? Ou as que adoram soltar frases que começam com “homem é tudo igual” ou “mulher é assim”? Eu já ouvi de uma dessas pessoas – que para mim representam o que eu acho um saco do Dia da Mulher – me falar  que eu era uma boa esposa porque cozinhava para o meu marido. Sendo que eu gosto de cozinhar, ele também, e cada um cozinha para o outro quando está menos ocupado (e cozinhamos juntos pelo puro prazer de cozinhar, quando podemos). Tenho grandes amigas que se sentem culpadas porque não gostam de cozinhar (e não sabem, francamente), mas sentem que é uma obrigação delas aprender. Minha avó paterna chegou a não aceitar uma namorada do meu tio porque ela não passava as camisas dele. Minha mãe foi obrigada a se casar e mudar de casa com 19 anos porque queria dormir fora de casa com o meu pai. Não é à toa que resultou em divórcio – se os dois tivessem a liberdade e o tempo de se conhecerem e conviverem sem a pressão social, talvez vissem que não tinham nada a ver um com o outro.

Em resumo, o que me incomoda na pieguice da comemoração do Dia da Mulher é que, em geral, ela vem de mulheres e homens que perpetuam as barreiras do machismo. O maior exemplo disso, para mim, é o sexual. É muito (mas muito mesmo) comum ver por aí homens e mulheres que ainda acham que existem os dois tipos de mulher: a vagabunda e a santa. A primeira é para comer, a segunda, para casar. A primeira é a amante, a segunda é a esposa e mãe dos filhos. E isso reforça a ideia de que, se reprimindo sexualmente, as mulheres serão um “bom partido”. É daí que vem marcha das vadias e mais uma porção de movimentos. Do questionamento de: espera aí, minha roupa vai definir se eu sou uma mulher competente, se eu me respeito, se tenho caráter ou sou ética? As coisas que faço na cama com o meu parceiro, ou o número de homens com quem eu transo (no caso das solteiras), vai fazer de mim uma pessoa moralmente questionável?

E por que dois pesos e duas medidas para homens e para mulheres?  Por que “homens são assim mesmo, não conseguem evitar”? Por favor. Pessoas que falam frases como essa são as que mais gostam de alardear o (e de se esconder atrás do) Dia da Mulher.

Até agora falei por que eu acho o Dia da Mulher um saco. Agora vamos ao real ponto da discussão: por que o Dia da Mulher é especial? Porque é uma data para lembrar que temos todos esses preconceitos incutidos que, como citei acima, precisam ser destruídos e combatidos todos os dias do ano. Porque por trás do surgimento do Dia da Mulher estavam pessoas que permitiram que as mulheres de hoje tenham alcançado tantos avanços em relação a essa disparidade de direitos. E para nos lembrar que ainda estamos longe de chegar a um ponto de equilíbrio.

Agora, sobre por que eu disse naquele post antigo que não era feminista. Foi por não me identificar com o feminismo em seu estereótipo ultrapassado. Ultrapassado, mas eu caí na armadilha de usá-lo naquele texto. Já se foi o tempo em que a feminista era a mulher que incitava o ódio aos homens, queimava sutiãs e achava que as mulheres não podiam se arrumar ou casar. Não estou dizendo que essas pessoas não existem mais. Mas que hoje, assumir-se como feminista é o mesmo que falar que mulheres e homens tem direito ao mesmo lugar ao sol. Essa feminista eu quero ser – a que não precisa minimizar os homens ou ser como eles, mas que luta para ter acesso às mesmas coisas.

Mulheres não são iguais aos homens. Nossos cérebros funcionam de maneiras diferentes, o resto dos nossos corpos também. E isso é uma outra questão muito interessante que discuti com a leitora do blog. Ela disse ficar indignada em observar como muitas mulheres (ela e eu inclusive nos identificamos com o estereótipo em um ou outro momento de nossas vidas), querendo derrubar preconceitos, acabam às vezes tombando para o lado de “ser um dos caras”. Andar só com os meninos, se vestir de maneira masculinizada e entrar para uma torcida organizada só para tentar provar que é igual certamente não é a solução. Porque mulheres não precisam imitar homens e deixar de ser mulheres para serem iguais. Porque não somos iguais (assim como não somos iguais como indivíduos dentro do nosso gênero, mas isso é outra discussão). Mas merecemos ter acesso às mesmas coisas. Se uma mulher não quiser ser engenheira civil porque não se identifica com a área, ok. Mas ela precisa ter a opção de exercer a profissão se ela quiser.

Portanto, feliz Dia da Mulher para os homens que amam as mulheres pelo que elas são, e que não questionam em nenhum momento o direito delas de falar, fazer, pensar e conquistar o mesmo que eles. E feliz Dia da Mulher para as mulheres que não têm medo de assumir sua feminilidade (sem serem escravas dela) e, ao mesmo tempo, sua força. De serem delicadas e meigas em alguns momentos e fogosas em outros. Feliz Dia da Mulher para as que sabem que os únicos limites intransponíveis são aqueles que construímos dentro da nossa cabeça.

Para as queimadoras de sutiã e hipócritas do Facebook, que o Dia da Mulher seja um saco: um dia que vai terminar em 24 horas. Para essas pessoas, o dia seguinte e todos os outros do ano serão de abismo entre os sexos.

Quer falar sobre sua visão de Dia da Mulher? Opine aqui.

 

Aqui estão trechos dos emails da Clara, leitora do blog que citei lá em cima (e que me motivou a escrever esse post), que achei muito esclarecedores e complementam bem o que tentei expressar acima. E concordo 100%! Ela me autorizou a reproduzir aqui:

“Fiquei feliz por ler sua resposta, não só porque concordo com muito do que você disse, mas porque ela também me fez pensar bastante sobre algo que noto em muitas mulheres esclarecidas – e eu me incluo nesse time. É a necessidade de sempre justificar, explicar o nosso feminismo. Por que será que sempre precisamos seguir o “sim, acho que homens e mulheres deviam ter direitos iguais” com o “mas não se preocupe, não sou uma dessas feministas chatas”? Acho que a maioria das mulheres tem certa necessidade de se mostrar agradável, maleável, o menos agressiva possível, muitas vezes desistindo de confrontos que mereciam ser realizados e de um poder que deveria ser usado. É engraçado, porque não noto essa tendência nos homens.

Não sei se consegui me explicar muito bem, mas é um pouco como a mania que eu noto em muitas, muitas garotas, e até mulheres, de dizer que adora esportes, que quando criança não era uma das meninas chatas que adoravam cor-de-rosa ou brincar de boneca, e mais um monte de características do que elas pensam ser a “garota legal”, aquela que os garotos vão adorar por gostar de tudo que eles gostam e nunca desafiá-los em nada. Como se gostar de coisas femininas fosse chato e vergonhoso, como se todas as outras garotas fossem umas idiotas, burrinhas, indignas de consideração. E é engraçado, porque essa “garota legal” é uma completa ilusão – ela tem que comer e beber como os garotos, gostar de tudo o que eles gostam, adorar as conversas deles. Mas, ao mesmo tempo, ela tem que ser gostosa, bem cuidada, falar de maneira delicada, ser o ponto médio perfeito entre a recatada e a vagabunda. Isso me parece tão triste, tão cansativo, mas é um comportamento assustadoramente comum.”

E no email seguinte:

“De qualquer forma, acho que o que importa não é ser a gente ser uma menininha cor-de-rosa, a casca-grossa ou o meio-termo, e sim se sentir livre para ser o tipo de garota que a gente quiser, sem ser julgada e sem julgar os outros também. Não há nenhum problema em pintar o seu quarto de rosa, gritar quando vê barata e se interessar por moda, dança e comédias românticas. Também não há nenhum problema em só usar bermuda e camiseta, curtir esportes e beber litros de cerveja num bar pé-sujo. Ou em misturar tudo isso do jeito que for mais natural para você.

Uma pessoa devia ser livre para se tornar o tipo de pessoa que ela é, e para as mulheres em particular isso é extremamente difícil – que mulher nunca teve que ouvir que os meninos não gostam de garotas melhores em matemática que eles, que os meninos vão passar a mão se ela for a um show de saia curta, que os meninos não vão respeitá-la se ela não se fizer de difícil, que os meninos não vão gostar dela se ela não se cuidar, etc., etc., etc., ad infinitum? É complicado se tornar uma pessoa natural e verdadeira sendo criada no meio dessa paranoia, e tudo em nome do objetivo máximo de agradar os meninos.

Todo esse papo me fez lembrar um artigo muito interessante que li outro dia sobre F. Scott Fitzgerald – um escritor que adoro de paixão – e o feminismo. Afinal, a obra dele cobre exatamente os anos da primeira onda de feminismo, quando as mulheres começaram a poder votar, cortar o cabelo, se comportar de um jeito ao menos superficialmente mais livre, etc. E embora ele não aborde essa temática diretamente, é óbvio na obra dele o conflito que esses novos costumes geram numa sociedade onde as mulheres ainda eram criadas para se casar, onde o valor atribuído a elas ainda era baseado nos homens com quem elas se associavam. Esse conflito, que sempre acaba gerando infelicidade para todos os envolvidos, ainda existe hoje, e sei lá quando ou como vamos superá-lo.”

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Publicado em 08/03/2013 por e marcado , , , , .
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