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Sobre coisas irritantes e inquietantes

Por que precisamos de heróis do esporte?

Por Carmen Guerreiro

Recentemente, três casos envolvendo atletas famosos chocaram o público.

O mais antigo deles diz respeito ao ex-ciclista Lance Armstrong, que ficou mundialmente famoso por quebrar o recorde de vitórias consecutivas do Tour de France – foram sete entre 1999 e 2005. Mas Armstrong foi acusado de ter conseguido essa proeza com a ajuda de doping, por isso perdeu todos os prêmios conquistados e foi banido do esporte. Circulou o mundo a entrevista exclusiva da Oprah em que ele, supostamente, teria colocado todas as cartas na mesa (digo “supostamente” porque já contestaram a veracidade das suas declarações).

Em 14 de fevereiro, quando o Brasil se preparava para acordar na quinta-feira pós-Carnaval, o atleta paraolímpico (ou paralímpico, se preferirem) sul-africano Oscar Pistorius foi acusado de ter matado a namorada a tiros em sua própria casa. Pistorius, nascido em 1986, é um corredor que ficou célebre por competir não apenas nos Jogos Paralímpicos (foi medalhista de ouro nos 100m, 200m, 400m e 4x100m entre 2004 e 2012), mas também nos Olímpicos – nas Olimpíadas de Londres no ano passado, ele competiu nos 400m (veja vídeo da corrida, melhor a partir dos 3m20s).

Em âmbito nacional, temos o judoca Aurélio Miguel, medalhista de ouro nas Olimpíadas de Seul em 1988. Hoje vereador de São Paulo no seu terceiro mandato consecutivo, o atleta vem encarando acusações de corrupcão e improbidade.

Esses três atletas têm algo em comum: todos foram transformados pelo público, por conta de seu desempenho e suas conquistas no esporte, em heróis. Mas nunca gostei da ideia de criar heróis no mundo real (nos quadrinhos tudo bem), porque isso coloca pessoas, que estão sujeitas às mesmas imperfeições que qualquer outro ser humano, em uma espécie de Olimpo, um altar de exemplo, perfeição e onipotência. Heróis não existem no nosso mundo.

Longe de mim defender os atos desses três e de outros atletas e ex-atletas. Mas é um fato que a comoção em torno dos casos é muito maior do que se os três não tivessem se destacado em suas categorias esportivas. Isso porque, de uma maneira muito maluca, nós associamos seu desempenho de destaque no esporte a qualidades éticas superiores.

O que faz o público (e a mídia) proclamar um atleta como um herói é basicamente ele ter uma habilidade superior que a média, algo que encanta o público. É sua habilidade não apenas de vencer, mas de fazer isso com graça, com encanto. É a tão aclamada “superação pelo esporte”. Parece que quando um atleta supera seus obstáculos, supera também qualquer entrave pessoal, intelectual e ético.

Mas a superação é puramente física (sem querer tirar o mérito dela, é claro). Ser um bom atleta está, acima de tudo, relacionado ao corpo, ao físico. Mas saber fazer algo bem com o seu corpo não te dá, em nenhum momento, vantagem moral ou ética em cima de outras pessoas. Se você é um corredor, você chegará antes. Se você é um jogador de esportes com bola, você marcará mais pontos. Mas isso não significa que você seja uma pessoa equilibrada emocionalmente, bem resolvida ou sequer educada.

Outro exemplo disso é o Ronaldo (fenômeno), tido como herói por ser um grande representante do sucesso no futebol. Ele é um cara engraçado, carismático e tal. Aí quando ele se envolve em um escândalo sexual, o choque de todos é enorme, porque parece que cobram de um grande esportista um comportamento ético e moral impecável. Mas uma coisa não está atrelada à outra.

Consultei no meu dicionário (Academia Brasileira de Letras, 2008) a definição de herói:

“1. Indivíduo dotado de coragem extraordinária ou notabilizado pelos grandes feitos.” Ok, acho que isso pode definir os atletas de grande destaque. Mas vejam as outras descrições:

“2. Indivíduo de grande abnegação, com o sentimento do dever para com seus semelhantes. 3. Personagem principal de uma obra de ficção (…); protagonista. 4. Filho da união de um deus ou uma deusa com um ser humano; semideus.”

Só que a conotação da palavra “herói”, quando aplicada ao esporte, tem base na definição número 1, mas se estende à definição número 2 e, por vezes, número 4.

Não sei como é ser colocado nesse altar, mas posso imaginar que quando as pessoas projetam esses sentimentos em você, é difícil que seu ego consiga resistir à onipotência, ainda que seja imaginária. Por outro lado, a pressão colocada em um esportista para que ele continue sendo esse herói faz com que muitos aceitem que os meios, sejam eles quais forem, justifiquem os fins, para que ele continue no topo. Para quem acompanhou o caso do Lance Armstrong, me parece bem o caso. Ele não admitia não ser o melhor, não ser o herói.

É claro que isso tudo é uma impressão minha. Não sou esportista e não sou famosa. Mas me parece mais sensato que um bom esportista seja encarado como um bom esportista. Podemos nos encantar, chorar, torcer. O Pistorius não deixou de ser um grande corredor pelo que supostamente fez. Mas talvez nossas expectativas tenham que se voltar apenas para o profissional, e não para a pessoa. Assim, a decepção é bem menor.

Mas não podemos ignorar um adendo importante: no caso do Armstrong, a falta de ética estava relacionada ao esporte. De fato, não dá para tratar isso como algo menor. E foi por isso que ele perdeu seus prêmios. Ser um bom esportista compreende, também, seguir as regras do esporte. Mas o meu ponto é um detalhe nisso tudo. Ele foi levado a esse comportamento antiético porque tinha se tornado um herói e não queria colocar isso a perder. Não dá para determinar se ele faria o doping mesmo sem ter se destacado no esporte, mas eu desconfio que existe uma influência entre a pressão para ser um herói e ele ter se sentido compelido a usar as drogas para continuar no topo. Só que ele não se tornou um grande ciclista por causa das drogas. E seu mérito primordial é ser um grande ciclista. Pelo que li a respeito do caso, a falta de ética dele se estendeu para além do campo esportivo – para a maneira como ele se relaciona com as pessoas, com a mídia, com instituições e com o mundo. E é esse o ponto da crítica: temos que cobrar ética esportiva, mas não necessariamente no campo pessoal essa pessoa é necessariamente ética.

Ainda uma outra questão: queremos que as pessoas que se destacam na nossa sociedade sejam um exemplo para os outros, e não há nada de errado nisso. Quantas crianças e jovens não devem ter se interessado pelo ciclismo por admirar o Armstrong, ou pelo judô por admirar o Aurélio Miguel? Quantos deficientes físicos provavelmente foram motivados a se engajarem no esporte por causa do Pistorius? Para essas pessoas, ver o seu exemplo, seu ídolo cair em desgraça é uma grande decepção. E, como já disse, não estou aqui para defender essas pessoas. Mas vamos tentar olhar para elas pelo que elas são: atletas fenomenais. E não necessariamente pessoas de reputação intacta ou ética impecável. Seria ótimo se fossem assim, mas não temos o direito de cobrar essa perfeição delas (ainda que tenhamos que cobrar um comportamento ético na prática esportiva).

E você, já se decepcionou com um atleta por conta de um escândalo ético? Ou continuou sendo fã de um esportista mesmo depois de um escândalo? Opine aqui.

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