AnsiaMente

Sobre coisas irritantes e inquietantes

A chantagem da dó

Crédito: shutterstock

 

Por Carmen Guerreiro

 

Hoje entrei em um ônibus de São Paulo e passei por um homem que vendia canetas. Mas ele não apenas vendia canetas, ele também fazia um discurso sobre estar ali vendendo canetas. Na verdade, eu só soube que ele vendia as canetas porque as vi na mão dele, já que o discurso foi mais ou menos assim:

“Se vocês comprarem estarão ajudando um pai de família, um trabalhador e pai de cinco filhos.”

E não é só isso!

“Se você comprar uma caneta, tenho certeza de que Deus vai abençoar você e a sua família.”

Esse tipo de coisa me deixa tão indignada que, mesmo se eu tivesse vontade de comprar a caneta, não compraria. Não admito ser constrangida a fazer algo, principalmente se isso vem acompanhado de recompensas ou castigos morais.

Quero dizer: eu devo ter dó de você, senhor das canetas? É isso que você quer que eu sinta? Você quer que eu compre suas canetas porque eu vou me compadecer com a sua história triste e, além de tudo isso, eu posso ficar com medo de Deus se zangar comigo e não me abençoar se eu não ajudar o senhor.

O mesmo vale para os voluntários da Unicef que querem pedir doações (aliás, não tenho certeza de que é isso, eu nunca parei para conversar com eles) e usam a seguinte frase para constranger as pessoas a pararem: “Você gosta de crianças?” Afinal, se você gosta, você precisa ajudar. Se você não gosta, você não tem coração (e merece queimar no fogo do inferno). É uma pena, porque o trabalho da Unicef é super legal e poderia ser mais valorizado.

No natal de 2011 eu recebi alguns cartões feitos por artistas deficientes físicos, não me lembro de qual instituição. Junto veio uma carta contando a história muito triste daquelas pessoas, e dados para o depósito do valor pelos cartões. Procurei um endereço, telefone ou qualquer informação que indicasse uma forma para eu devolver os cartões, pois não queria ficar com eles. Mas não havia nem na carta, nem na internet. Ou seja, a mensagem era a seguinte: nós somos boas pessoas que confiamos em você, e estamos enviando nosso trabalho suado para que você pague por ele.

Só que eu não quero ser coagida a comprar algo, tampouco escolheria aqueles cartões se os visse em uma loja. Resultado? Eu não quis pagar, por princípios, mas não quis usar nem dar para alguém, pois não seria justo usá-los sem pagar por eles. Eles ficaram em uma gaveta até a arrumação seguinte, em que fui obrigada a descartá-los na reciclagem. E conforme fiz isso, senti muita raiva de essa ser minha única opção.

Me incomoda bastante a ideia de que, para conseguir doações, você tenha que fazer as pessoas ficarem tristes e culpadas, com dó, a ponto delas se sentirem responsáveis por você e pela sua situação. O objetivo de todas essas abordagens me parece único: fazer as pessoas se sentirem mal. Não só mal, mas melhores do que aquele que pede. Sentirem que sua vida não é tão ruim quanto a deles, por isso é quase que uma obrigação social ajudar. Isso é péssimo. Não me levem a mal, eu admiro quem se dedica a um trabalho voluntário. Mas não queira fazer eu ter pena de você. Afinal, por que alguém quer atrair sentimento de pena? Ele só diminui, enfraquece, desestimula.

Se precisa de uma recompensa para doar, você está doando pelo motivo errado. Se você tem medo de ser punido de alguma forma (nem que seja pela sua própria consciência), você está doando por um motivo MUITO errado.

Gosto de doar para / comprar produtos de pessoas de bem com a vida e com um trabalho bacana, que não tentam me coagir a dar dinheiro. Não são menos pobres do que os outros, mas se dão mais valor, não se colocam abaixo de mim, e isso é importante.

Há alguns meses, começaram a me ligar no trabalho de uma ONG para falar que só faltavam 10 reais para que uma criança com câncer tivesse seu remédio. Eu dizia que não ia ajudar, e a pessoa do outro lado da linha falava de tudo para fazer com que eu me sentisse culpada, como se aquela criança fosse morrer por minha causa. Eu só conseguia sentir raiva. Um mês depois, no entanto, ligaram para o meu colega da mesa ao lado com o mesmo discurso dos 10 reais. E a argumentação: “Mas não vai fazer falta para você! Mas ela pode morrer!”

Existem muitos, mas MUITOS projetos bacanas sendo desenvolvidos. Sinceramente, eu mal tenho verbas para pagar minhas próprias contas. Mas estou me organizando para reservar algo em um futuro próximo para fazer doações a instituições que conheço e acredito (por enquanto só faço de roupas e objetos de casa, mas não de dinheiro). Elas têm um trabalho maravilhoso, e não precisam fazer ninguém se sentir culpado por doar pouco ou não doar dinheiro para eles, ainda que sempre faltem recursos. Quando eu tiver condições, quero auxiliar diversos projetos de proteção, abrigo, resgate e saúde de animais que tomei conhecimento através do meu trabalho e também de quando adotei minha cachorra e meu gato. Gostaria também de doar para o projeto The Story of Stuff, para o Banco de Alimentos, para a Casa do Zezinho, para as creches da Ananda Marga e para diversas outras entidades.

Espero um dia conseguir uma renda para ajudar ao menos uma dessas causas. Mas não será porque tenho pena delas.

E você, o que pensa sobre doações e compra de produtos para ajudar pessoas e entidades carentes? Opine aqui.

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