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Sobre coisas irritantes e inquietantes

Dublagem é para os fracos

Crédito: Shutterstock

 

Por Carmen Guerreiro

 

Recentemente, busquei um cinema em São Paulo no qual estivesse passando As Aventuras de Pi em 3D. Eu li o livro e tinha ouvido dizer que a versão tridimensional era diferente dos filmes convencionais, por isso estava empolgada. Só que não estava mais passando em muitos lugares. O cinema era longe e dentro de um shopping, mas fomos para a sessão das 23h. Na hora de pagar os ingressos, no entanto, um susto: a versão era dublada!

Chequei várias vezes, incrédula. Uma sessão dublada quase à meia-noite?

Fomos embora sem ver o filme.

Não era um filme infantil, tampouco em um horário adequado para crianças. O que explicaria a dublagem, afinal? Lembrei, então, de uma matéria que escrevi ano passado sobre o aumento da preferência nacional pela dublagem.

A maioria dos brasileiros (56%) hoje prefere ir ao cinema para ver filmes dublados. Apenas 37% são fiéis às legendas. Por isso, os cinemas tratam de pedir cópias dubladas de filmes de Hollywood, como O Cavaleiro das Trevas, longa do Batman que teve a maioria das cópias dubladas no Brasil.

Desculpem, mas acho impossível que quem realmente se interessa por uma arte como o cinema prefira a dublagem. Isso porque o áudio original é, afinal de contas, original. Parece bobo falar isso, mas realmente estou tentando chamar atenção para a obviedade. Exemplo: acredito que a maioria é fã de um ou outro ator. Eu, por exemplo, adoro o Edward Norton, o Kevin Spacey, o Christopher Walken, o Sam Rockwell… E gosto deles pela forma como interpretam, como falam, pelas nuances e timbre da voz, enfim, por um motivo que faz com que sejam ótimos atores. Por melhor que seja um dublador, ele não é um ator tão bom quanto o que fez o filme.

Outra questão desagradável da dublagem é ouvir uma voz de um dublador já conhecido. Existem alguns que sempre se repetem e isso estraga a interpretação dos atores. É igualmente chato quando os dubladores têm um sotaque pronunciado (em geral é o sotaque carioca). Torna a interpretação ainda menos verossímil. E os sons ambientes, que muitas vezes se perdem?

Ok, eu devo admitir que a dublagem de fato melhorou muito nos últimos anos, e que atualmente assistir a um bom filme infantil, como os da Pixar, na versão dublada, não representa grandes perdas para a versão original.

Mesmo assim, toda tradução implica em uma perda. Isso não é nem questionável. E se eu pudesse, adoraria saber falar todas as línguas do mundo para poder ler livros e assistir filmes no idioma original, mas não posso. Tento fazer isso com as línguas que eu conheço, e leio o que posso da forma que o autor escreveu. Me chamem de arrogante se quiserem, mas alguém acha, por exemplo, que um Guimarães Rosa pode ser traduzido para outra língua sem perder parte de sua riqueza? Não é comum que se diga que diferentes traduções da Bíblia e de outros textos sagrados dão a entender diferentes dogmas religiosos? Nunca leio um texto traduzido com a ilusão de que estou tendo acesso a 100% dele, sem perder significados, piadas, reflexões etc.

Pois no cinema é a mesma coisa. A legenda é uma tradução, é claro, mas dá a opção de ouvir a forma como os atores falaram aquilo e, caso o espectador entenda a língua original, pode ler ou não as legendas. Além disso, não dar a opção do áudio original já é uma informação importante perdida.

Isso leva à conclusão de que quem prefere a dublagem não está interessado pelo filme como um produto cultural, mas o vê apenas como um passatempo, um entretenimento superficial. Por isso explico o título deste post: digo que são fracos não porque olho eles de cima para baixo e desprezo sua ignorância. E sim porque acredito que somos todos capazes de nos esforçar para consumir um melhor produto cultural, que vá acrescentar algo à nossa formação.

É perigoso especular os motivos dessa preferência pela dublagem, mas li uma matéria da Revista Época em que um executivo do ramo cinematográfico falou que a entrada da classe C na classe média fez com que pessoas que só assistiam à programação da TV aberta (em que os filmes são dublados) passassem a ir ao cinema e levar o hábito consigo. A ampliação ao acesso explicaria também a decisão da rede Telecine, de canais pagos de filmes, de mudar toda a programação para a versão dublada, com a opção de o assinante mudar as configurações e colocar o áudio original e as legendas (outros canais só oferecem o áudio original, não as legendas).

Vamos considerar então que o crescimento da classe média fez com que mais pessoas passassem a frequentar o cinema. Isso é bom, certo? Mais acesso à cultura? Sim, cultura para todos seria ideal. O problema é que esse aumento do poder aquisitivo não acompanha uma educação melhor.

Isso significa que provavelmente a maior parte dos brasileiros prefere filmes dublados pelo triste fato de não saber ler, ou ser analfabeta funcional, ou não ter prática de leitura e não conseguir acompanhar as legendas. Isso ficou claro quando li o seguinte absurdo na mesma matéria da Revista Época: “Um filme como Os vingadores, que tem muita violência e pouca conversa, contém 50 mil caracteres de legenda, equivalentes a 30 páginas de livro. Em duas horas, é muita leitura para quem não está acostumado.”

Eu gostaria de acreditar que os jornalistas fizeram uma ironia. Ainda que, se esse foi o caso, tenha sido de mau gosto.

E você, prefere legendado ou dublado? Por quê? Dê sua opinião aqui.

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Publicado em 01/02/2013 por e marcado , , , , , , , .
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