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Sobre coisas irritantes e inquietantes

E a corrupçãozinha, não conta?

 

Por Carmen Guerreiro

 

Estou farta do assunto preferido do brasileiro. Não, não é futebol, não é sexo, não é novela. É corrupção. E aposto que os brasileiros só falam disso o TEMPO TODO porque estão fartos da corrupção pública, também. Corrupção é o assunto do fundo do ônibus, da redação do aluno que quer impressionar a professora, do engravatado no celular caro, enfim, de todos.

A corrupção é suja, é injusta, é pegajosa, não é mesmo? Eu também fico indignada com a corrupção do nosso país. Duvido que alguém bata palminhas e “curta” (é, como no Facebook) pagar impostos não só sobre tudo o que come e compra, mas também Imposto de Renda, IPVA, IPTU e mais todos os impostos dos que precisam abrir uma empresa simples e individual para conseguir trabalhar, como é o meu caso, e ver isso sendo usado incorretamente. Seria gratificante pagar tudo isso se víssemos uma melhora significativa nos serviços públicos, e não notícias diárias de pessoas que usam esse dinheiro para comprar coisas que faltam na minha casa e que provavelmente eu nunca terei, e que não posso comprar nem se eu quiser porque “dei” o dinheiro para eles enriquecerem às minhas (e nossas) custas.

É isso que emputece os brasileiros, eu sei.

Mas é aí que o brasileiro se esquece de um ditado muito precioso, aquele do telhado de vidro. E o telhado de vidro da maior parte dos brasileiros que ficam “blablazando” sobre corrupção é mais fino e quebradiço do que cabelo de madame de salão.

É muito bonito encher a boca para falar da sujeira que é a política no nosso país. Eu sei, pode até impressionar o seu chefe, talvez a sua namorada, quem sabe até a sua mãe. Mas por que muitas dessas pessoas não acham errado comprar uma carta de motorista para evitar o desgaste todo do processo de emitir sua CNH? Por que não tem problema furar a fila? E sonegar imposto, tudo bem? Fingir que não reparou que o troco veio errado? Pedir para o taxista preencher um valor maior do marcado no taxímetro no recibo para a firma?

Não estou aqui pregando que sejamos todos puros e livres de todos os deslizes morais e éticos. Seria ideal, mas não realista. Mas me irrita a hipocrisia de quem ergue o dedo para falar que o Brasil não vai para a frente por causa dos políticos corruptos, mas ignora suas próprias “corrupçõezinhas” do cotidiano. É só o “jeitinho brasileiro”, não é mesmo? E ainda reclamam: “Mas se eu não fizer isso”, (preencha aqui com alguma grande injustiça que praticamente OBRIGA o sujeito a se “corromper”, como “o porto não vai liberar a minha mercadoria”, “o guarda vai me multar injustamente”, “vou demorar muito mais tempo para fazer sei lá o quê”).

Afinal, são coisas TÃO PEQUENININHAS, né, minha gente? Aí o sujeito que acha isso normal, pequenininho, entende que corrupção é só de grandes coisas. Isso não faz sentido nenhum! Se o meu marido me traísse, fosse levando para a cama durante meses ou beijando uma só vez uma outra mulher, para mim é traição. A gravidade é diferente? Sim, é. Mas não dá para dizer que o beijinho é inocente. O princípio das duas ações foi o mesmo.

É de se entender em que um país com tamanha hipocrisia ética, um político corrupto seja como é. Em uma sociedade em que essas permissividades são vistas como “totalmente OK” no dia a dia, isso está incutido nos valores dele quando é eleito para um cargo. Ou ele vai virar santo porque entrou para a carreira política? Não. Só que quando se fala de recursos públicos, os números são grandes. E a corrupção é proporcional ao meio em que ele está inserido. Vida privada, corrupçãozinha. Vida pública, corrupçãozona. “Pô, mas aí não pode!” Qual é o argumento?

Eu queria escrever sobre esse assunto faz tempo, mas coincidentemente saiu recentemente uma pesquisa da UFMG mostrando as dez corrupções que os brasileiros costumam praticar, e surpreendentemente um quarto deles não considera corrupção. Li igualmente um texto do escritor Antônio Prata sobre o assunto, e exprime com outras palavras o mesmo que estou tentando argumentar aqui.

E é por isso, basicamente, que quando alguém reclama da corrupção do Brasil, coloco o fone de ouvido, começo a pensar em outras coisas, saio de perto. Quase nunca é algo que valha a pena ouvir. São discursos vazios de quem ouviu o pai reclamar e reproduz aquilo que não entende ou sabe defender/se aprofundar. É para quem quer achar um culpado externo e distante para que ele possa continuar sentado, só reclamando, e fazendo suas corrupçõezinhas. Afinal, uma coisa justifica a outra, né? É para quem quer se achar engajado, mas que não sabe nem citar mais de uma ação do seu governo, seja ele local ou federal.

Antes de ficar reclamando do “absurdo” que é essa “roubalheira”, por que não permanecem eticamente impecáveis? Por que não se interessam em saber que ações foram de fato colocadas em prática pelo governo e por quais motivos funcionaram ou não funcionaram, em vez de falar que “político é tudo igual” e que só fica em Brasília dormindo e roubando? Por que não cobram transparência e outras medidas para diminuir a corrupção pública e quebrar a estrutura de corrupção que está armada em nosso poder público? Ah, porque aquele filme do “gato Net” está para começar e você não quer perder. Entendi.

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Publicado em 23/11/2012 por e marcado , , , , .
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