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Sobre coisas irritantes e inquietantes

Jaleco na rua. Pode, doutor?

 

Por Carmen Guerreiro

 

Hoje cedo tomei café da manhã em uma pequena lanchonete na rua. Não era dentro de um shopping ou centro comercial, mas também não era uma kombi literalmente na rua – e isso faz diferença para o assunto do qual quero falar. Uma mulher na mesa da frente, que também fazia sua refeição matinal, usava um jaleco enquanto comia.

Aquilo me deixou incomodada como sempre fico quando vejo alguém com jaleco fora de um hospital, laboratório, posto ou qualquer local de saúde. Lembrei de quando pegava um ônibus que passava na frente da faculdade de medicina da USP e do Hospital das Clínicas, aqui em São Paulo, e que sempre tinha uns dois ou três de jaleco no transporte público.

Espera aí: o jaleco não serve para criar uma barreira e proteger minimamente o médico (auxiliar, enfermeiro, anestesista, estudante, o que quer que seja) de levar bactérias e organismos que podem causar infecções para um ambiente que precisa ser limpo ao ponto do estéril? E vice-versa! Um ônibus, por onde passam centenas de pessoas durante o dia segurando nos mesmos locais que você, parece um local apropriado para usar um jaleco e depois entrar em um hospital? E uma lanchonete, onde as pessoas comem, é um lugar legal para que um profissional da saúde, que mexeu sabe-se lá com o que no seu local de trabalho, permaneça com o seu jaleco?

Ninguém com quem eu comentava esse fato parecia achar tudo isso tão absurdo quanto eu, até que descobri que isso de fato era uma questão quando, no ano passado, criou-se uma lei no estado de São Paulo para proibir o uso do jaleco fora do ambiente de trabalho do profissional da saúde. Mas, como quase todas as leis nesse país, essa “não pegou”.

Me incomoda a falta de higiene, mas me deixa abismada a irresponsabilidade.

Afinal, por quais motivos essas pessoas usam seus jalecos fora do local onde ele é de fato necessário? Só consigo pensar em dois: o primeiro seria preguiça de carregá-lo e o segundo, que eu acho o mais provável, é vaidade. Vontade de mostrar para as pessoas que é médico ou estudante de medicina. É status. Isso ganha força se prestarmos atenção (é claro que precisamos de mais informações do que somente a observação pura, mas enfim) de que quem mais sai na rua de jaleco é de fato médico ou estuda para ser, e não um profissional de laboratório, enfermagem etc. E sendo essa uma posição de prestígio, as pessoas gostam de exibir seus jalecos como insígnias de sucesso. Mas isso não demonstra nada além de irresponsabilidade e desleixo.

Mesmo que existam 1001 formas de contaminar e ser contaminado, minimizar essas maneiras é um dever do profissional de saúde. E se acham que isso é uma besteira, então não usem jalecos! Senão, como bem disse o marido hoje de manhã na lanchonete, ele serve só para proteger a roupa da própria pessoa. Tipo um babador.

Médicos são cheios de regras quando se trata de falar o que devemos fazer com a nossa saúde: pode isso, não pode aquilo e aquilo e aquilo outro de jeito nenhum. E aí depois dão esse tipo de exemplo? Isso pode?

E você, concorda que os médicos e outros profissionais da saúde que usam jalecos devem tirá-lo para sair na rua ou isso é desnecessário? Opine aqui.

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