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Sobre coisas irritantes e inquietantes

Um lixo sem destino

 

Por Carmen Guerreiro

 

Nessa semana eu e o marido achamos que nos livraríamos de um ano de isopores acumulados, desde bandejinhas de presunto até suportes para aparelhos eletrônicos novos. Resolvemos juntar bastante porque lemos que só havia uma cooperativa em São Paulo que aceitava esse tipo de material, e ela era bem fora do nosso caminho, ainda mais levando em conta que usamos muito pouco o carro. Acontece que quando o marido chegou na cooperativa ela não ficava mais lá. Eu então liguei para eles e fiquei sabendo que não estavam recebendo isopores. “Reclama na prefeitura, porque eles precisam orientar as pessoas a descartarem esse material”, me disse a atendente, um pouco sem paciência.

Com três sacos gigantescos de isopor no porta-malas, o marido acabou deixando o material em uma caçamba na rua, porque não tínhamos o que fazer com aquilo em casa e os postos de coleta de reciclagem onde normalmente levamos nosso lixo não aceitam isopor.

Não estou aqui para defender que todos devem estocar sacos de isopor em casa. Mas queria registrar minha indignação com a falta de apoio e orientação aos cidadãos que querem descartar materiais que não os clássicos alumínio, papel, plástico e vidro, mas não sabem como.

Há alguns meses, o mesmo aconteceu conosco em relação a ferro. Terminamos uma reforma e queríamos nos livrar de uma estrutura de ferro instalada pelos antigos moradores. Era grande demais para colocar em cima do carro e levar em um ferro-velho. Liguei na subprefeitura e não souberam me orientar. A operação cata-bagulho também não pegava esse tipo de material. Os postos de coleta da prefeitura, que em teoria aceitam restos de reforma, não sabiam nem com quem podíamos falar. Em todos os locais privados que eu ligava, só compravam ou recebiam acima de X toneladas. Ficamos desesperados, com um elefante de ferro no quintal, durante meses.

Aventamos deixar o estorvo na rua para que alguém pegasse, mas isso me incomodava muito. Afinal esse é o problema do lixo: parece mágico como deixamos ele na porta de casa e ele some de nossas vidas, não é? Só que ele não some!

Enfim, passeando um dia com a minha cachorra vi um senhor carroceiro que tentava desmontar uma geladeira antiga de ferro na calçada. Perguntei, então, se ele não se interessaria pela estrutura de ferro. Esse homem ficou tão feliz quando viu aquilo no meu quintal que parecia querer me abraçar. Me fez prometer que não falaria com mais ninguém e deixaria ele pegar tudo aquilo. No dia seguinte, trouxe toda a sua família para ajudá-lo a levar o trambolho. No fim, ele quase chorou, nos agradecendo enormemente. Aquilo certamente lhe renderia um bom dinheiro no ferro-velho. Eu disse “eu é que agradeço o senhor por levar isso daqui”.

Faz sentido que tenham pessoas que precisam desse material para sobreviver de um lado e, de outro, outras que não sabem o que fazer com aquele “lixo”?

E não precisamos de histórias mirabolantes para provar isso, não. Minha melhor amiga morava em um dos principais bairros de São Paulo e me pediu ajuda para reciclar seu lixo do dia a dia, porque não havia um posto de coleta perto da casa dela e a prefeitura não recolhia em sua rua (não qualquer rua: para quem conhece São Paulo, é a Consolação). Ela não tinha estacionamento perto e, morando sozinha, não conseguia carregar o lixo até o seu carro a dois quarteirões de distância. Por isso desistiu de reciclar.

Tudo isso se torna ainda mais absurdo e lamentável quando vemos notícias de que as pessoas estão reciclando mais e mais, mas que as cooperativas cadastradas pela prefeitura estão saturadas e por isso boa parte desse material está indo para aterros comuns. Quer dizer: a população está tomando consciência de que separar o seu lixo é importante e não é nada difícil, basta incorporar no cotidiano da casa, mas aí a prefeitura não aguenta a demanda.

Isso porque estou em São Paulo, a maior cidade da América do Sul. E quem mora no interior ou em cidades menores, como faz? Muito se fala de conscientizar as pessoas, mas acho é que governos precisam se mexer para acompanhar esse movimento na mesma velocidade em que cidadãos tomam ação.

E você, já teve dificuldades para descartar algum material ou fazer reciclagem em casa? Como isso funciona na sua cidade? Conte a sua experiência aqui.

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Publicado em 01/11/2012 por e marcado , , , , , , , .
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