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Sobre coisas irritantes e inquietantes

Idoso não é café com leite

 

Por Carmen Guerreiro

 

Se tem algo que me irrita desde pequena é ver a forma como as pessoas tratam os idosos como café com leite, ou seja, como se fossem filhotinhos, bebês ou simplesmente gente que “não conta”. Quem já não viu aquela pessoa que até é próxima de você, com quem você tem consideração, soltar um “aaaah, que fofinhos!” quando vê um casal de idosos de mãos dadas ou se beijando?

Acho complicada essa postura de chamar quem é velho de “fofo”, porque o critério é o mesmo que nos leva a chamar uma criança de fofa: quando fazem algo que adultos fazem. Só que isso se aplica a crianças porque elas ainda não viveram sua fase adulta e estão aprendendo a ser gente. É uma situação engraçada. Não é engraçado ser paternalista com os idosos, é falta de respeito, porque eles já viveram muito mais do que nós e têm muito mais experiência e sabedoria. Alguns perdem parte disso com a senilidade e outras doenças como Alzheimer? Sim. Mas isso é triste, não fofo. Tratá-los assim é um desrespeito, porque indiretamente é o mesmo que tratá-los como inferiores.

Por que toda uma vida de uma pessoa é desconsiderada porque ela ficou velha? O mesmo vale para quando a pessoa fez algo muito ruim durante a sua vida. Por que o ditador chileno Augusto Pinochet soava menos culpado pelos assassinatos que cometeu quando estava senil? Ter passado dos 80 anos mudou o fato de que ele mandou matar e torturar centenas de pessoas? Aparentemente sim, porque ouvi muita gente com pena dele quando caiu no banheiro no fim da vida, ou quando estava doente no hospital. “Coitadinho”. Coitadinho por quê? O que ele fez para se redimir dos seus erros? Envelheceu?

Acho inclusive que muitas dessas pessoas que tratam os idosos como café com leite acabam desrespeitando os seus direitos, como a fila e o assento preferencial e a vaga exclusiva, porque acham que quem é velho é menos importante. “Isso é hora de velho estar na cama”, já ouvi dizer como justificativa para podar os direitos desses cidadãos. E esses direitos não existem porque o Estado tem pena dos idosos, nem porque eles são coitadinhos, mas por razões objetivas: fragilidade de saúde.

Um idoso que namora, que dirige, que sai à noite, que encontra amigos, que estuda, que quer trabalhar, não pode ser chamado de fofo. Um idoso que matou, machucou as pessoas, foi alguém ruim durante a sua vida, não pode ser chamado de coitadinho. Cada um nasce com o direito a uma vida e, na teoria, pode fazer dela o que quiser. Devemos respeito à dignidade dessas pessoas, que viveram durante muitos anos e por uma questão biológica seus corpos e mentes foram padecendo. Mas o que fizeram durante suas vidas, tanto em conquistas como em derrotas, não pode ser desconsiderado!

Por que quando um idoso faz uma consideração racista é ignorado? E quando faz uma colocação importante, muitas vezes é ignorado também.

E é por isso que acredito que precisamos respeitar os idosos como PESSOAS que viveram bastante, e tratá-los como tais. Sem condescendência, sem amenizações. De igual para igual, na medida em que são pessoas como nós. Com respeito às suas dificuldades e direitos, como pessoas que viveram mais e precisam de cuidados especiais por conta de sua saúde que pode (ou não) ser frágil. Ou seja: também não acho certo quem é velho se aproveitar disso para ser mal educado. Vejo sempre um idoso empurrando alguém, xingando outras pessoas, querendo tirar vantagem em cima de você. E isso também não está certo. Mas isso só demonstra que eles são como qualquer outra pessoa, só que  envelhecida. Ou a pessoa que nos empurra no metrô, que não para na faixa de pedestres, que nos desrespeita na rua fica “boazinha” e educada quando fica velha? Fica nada, ué.

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Publicado em 23/10/2012 por e marcado , , , , , .
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