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Sobre coisas irritantes e inquietantes

O Brasil é laico. Será?

 

Por Carmen Guerreiro

 

Passei muitos meses de férias em Brasília durante minha adolescência visitando meu pai. Certa vez, fiz o tour guiado do Congresso Nacional. A moça que explicava os detalhes arquitetônicos e as funções dos congressistas sabia de tudo, menos a resposta para a minha pergunta:

– Por que há símbolos de cruz espalhados pelo Congresso, se o Brasil é um Estado laico?

Depois de muito hesitar e gaguejar, a guia, constrangida, disse que perguntaria isso a alguém. Foi perguntar e voltou sem resposta. E os crucifixos continuam lá.

O fato é que é inconstitucional exibir símbolos religiosos em instituições que representem os brasileiros. Isso porque o nosso país separou Estado de religião em 1890 (isso mesmo, há mais de século), estabelecendo neutralidade religiosa – o que, teoricamente, significa que questões relacionadas a qualquer tipo de crença não influem no governo do país, e que o Estado representa todos os brasileiros, não apenas os católicos.

Mas e na prática? Aí é diferente. Quando o crucifixo de Lula saiu do gabinete da Presidência da República no governo Dilma, houve uma comoção nacional. Por quê? Quer dizer que o país é laico só de mentirinha? Até mesmo a catedral originalmente ecumênica de Brasília acabou levando uma cruz na cabeça que não estava no projeto original.

Quero deixar claro que não se trata de professar uma religião ou outra, ou de defender uma crença específica. Trata-se de se sentir representada e respeitada como cidadã brasileira independente da minha fé (ou não-fé). Existem não apenas cristãos, mas muçulmanos, espíritas, judeus e um monte de religiosos nesse país. E mais um monte de agnósticos e ateus. Então dizer que o governo representa o povo é tão falso assim que se ignora a Constituição para deixar símbolos católicos “esquecidos” por aí?

Instituições privadas podem espalhar os símbolos que quiserem em suas construções, afinal representam apenas seus proprietários. Mas tudo o que é público precisa servir a todos, e não existe unidade religiosa no todo.

Isso porque estou ignorando o fato de que um candidato só se elege neste país para altos cargos se afirma com todas as palavras, jura de pé junto, que é cristão.

Atletas brasileiros também fazem feio lá fora – Saindo do âmbito da política, vamos para o esporte. Em 2009, a FIFA recebeu um monte de reclamações de países (como a Dinamarca e a Inglaterra) porque os jogadores comemoraram a conquista da Copa das Confederações na África do Sul de maneira fervorosamente religiosa. E esse foi o estopim para que a federação proibisse expressões religiosas em jogos de sua responsabilidade. É claro que os jogadores podem ser cristãos, oras! Mas a questão é a mesma dos congressistas e dos presidentes: eles estão lá representando o nosso país e todos os brasileiros.

Mais recentemente, o mesmo aconteceu nos Jogos Olímpicos de Londres. Quando venceram o ouro, como de costume as brasileiras do vôlei oraram. Dessa vez, fizeram uma roda com todos os membros da comissão técnica e jogadoras para rezar um Pai Nosso. Na hora fiquei um pouco chocada, imaginando se 100% daquelas pessoas tinham a mesma crença. Mas sabia certamente que elas não estavam mais representando todos os brasileiros. Depois li um artigo do André Barcinski perfeito sobre o assunto: “Brasil é ouro em intolerância”.

Intolerância.

O mais engraçado (espera aí, não é engraçado não, é TRÁGICO mesmo) é que ouço muita gente falando justamente que proibir esse tipo de manifestação (crucifixos em prédios públicos, orações no esporte) é intolerância. Notícia para vocês: comprem um dicionário, façam um curso, aprendam a pensar, o que for, mas entendam que tolerância é aceitar que todos são diferentes e que merecem o mesmo respeito e representatividade.

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Publicado em 10/09/2012 por e marcado , , , , , , , , .
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