AnsiaMente

Sobre coisas irritantes e inquietantes

Sobre amigos, julgamentos e condescendência

 

Por Carmen Guerreiro

 

Uma pessoa me disse há um tempo algo que não saiu da minha cabeça: o que é um amigo de verdade? Aquele que te dá bronca quando você faz algo errado ou aquele que dedica horas para ouvir você chorar e passa a mão na sua cabeça? Minha resposta foi: alguém entre os dois. Eu não quero um amigo que fica fazendo agrados e, apesar de me confortar, me julga pelas costas. Quero alguém que me julgue (como todos os humanos fazem, não sejamos hipócritas) e fale para mim suas conclusões de uma maneira construtiva, é claro. Não quero também uma pessoa que só aponte o dedo na minha cara para mostrar os meus deslizes. Eu já tenho uma mãe! Brincadeira, minha mãe não é assim. Mas enfim…

O que quero dizer é que são sortudos aqueles que encontram um amigo de verdade, que para mim é quem (não necessariamente nesta ordem):

1. Não fica com dedos para te criticar quando preciso

2. Não emburra ou vira a cara para você de uma hora para a outra e prefere se afastar a conversar sobre o assunto e melhorar a situação

3. Se interessa por você por quem você é, e não por quem você conhece, pelas piadas que você conta ou pelo que você faz pela pessoa

4. Você pode ficar meses, anos sem ver, e quando reencontra, tudo é igual e não existe menos liberdade ou intimidade

5. Legitimamente se preocupa com você e está disposto a fazer algo para te fazer feliz ou te ajudar quando é preciso

Acho que um problema, que talvez seja só da nossa cultura no Brasil, mas pode não ser também, é o desespero para ser amado, ser querido, ser legal. Já perceberam que tem gente que tem um milhão de amigos? Conheço quem considera que, teve um bom papo uma vez, já é amigo. E também chama de amigo quem conhece, mas quer chamar de amigo pela conveniência que aquela pessoa traz: “tenho um amigo que trabalha na empresa X e pode conseguir isso”, “conheço o garçom do bar tal e ele pode arranjar um desconto para a gente”, “minha prima é amiga do cara amigo do produtor da banda Y e posso tentar ingressos para o show”. Eu tento me afastar dessas pessoas, porque não acredito que alguém tenha tantos amigos. Acho que amigos são invariavelmente poucos. E os meio amigos não me interessam, sinceramente (no sentido de investir na relação, e não simplesmente conviver no cotidiano).

Mas o que eu mencionei da cultura brasileira é o medo de criticar os amigos da forma como eles precisam (e não me excluo disso) com o medo de ser menos querido. Com medo da pessoa gostar menos de você. E aí a amizade é feita só de agrados.

Por outro lado, é fácil criticar os outros sem se colocar no lugar deles, certo? E esse é outro cuidado que muita gente precisa ter: quase toda reclamação que eu ouço, fofoca ou qualquer tipo de crítica são claramente conclusões precipitadas de quem não parou para tentar entender o ponto de vista do outro, ainda que não concorde.

O meu problema é justamente o contrário: sou muito condescendente com as pessoas próximas, porque as conheço suficientemente para me colocar no lugar delas e entendê-las, mesmo que não concorde com elas.

Quem já não ouviu aquele grande amigo falando uma imensa bobagem? Pode ser uma opinião política, uma questão religiosa, uma polêmica qualquer. Algumas das minhas grandes amigas já traíram seus companheiros e vieram buscar conforto no meu ombro. E sinceramente? Não fui dura com elas. Disse, sim, que isso não era justo com o cara, e que o mais certo seria terminar o namoro. Mas também entendi a insegurança, a paixão, as dúvidas, o desgaste da relação e tudo o mais que levou cada uma delas a fazer aquilo.

E isso me levou à seguinte reflexão, junto com aquela pessoa que menciono no começo do texto: muitas vezes somos complacentes com os erros de quem gostamos muito, e somos exageradamente críticos e duros com aqueles de quem não gostamos. Não é verdade? Muitas vezes me pego ouvindo algo normal de uma pessoa que não gosto e a criticando por isso, sendo que se uma amiga minha falasse o mesmo eu pararia para ouvir e talvez até achasse legal. Péssimo!

Por que quando a ex do meu marido fala que não levou a minha enteada na escola porque perdeu o horário de manhã eu caio em cima dela e chamo de preguiçosa, mãe relapsa etc., e quando uma amiga minha faz o mesmo eu falo: “ah, normal né, você está cansada por causa disso, disso e daquilo, e não tem problema também perder um dia”? É bem injusto, de certo. Mas é algo que devemos tentar mudar? Um exercício que tenho feito diariamente é tentar me colocar no lugar das pessoas que não gosto e entender o que as leva a agir como agem, pensar como pensam, etc. Não significa que passo a gostar mais delas, mas que entendo melhor como funcionam as suas cabeças e muitas vezes deixo de passar raiva. É um exercício difícil para caramba, e me pego sofrendo às vezes com isso. Da mesma forma, sofro de vez em quando em não encontrar uma forma de falar para as pessoas importantes para mim onde acho que elas estão errando, o que acho que poderia ser diferente. Recentemente consegui alguns avanços com isso. Falei para a minha irmã por que eu achava que a atitude dela estava alimentando a birra da minha sobrinha, e falei para a minha melhor amiga que achava que ela estava se anulando mais do que o necessário com o seu namorado. Mas falei tudo isso com tato e mostrando que minha preocupação é que elas sejam felizes. E elas entenderam e me ouviram, foi incrível!

Também me marcou bastante quando escrevi o post da Arrogância segundo os medíocres, que atraiu milhares de pessoas do mundo inteiro para o blog, e encontrei nos feedbacks tanto quem se identificasse e gostasse da forma como o texto foi escrito (a maioria dos casos) quanto, no outro extremo, aqueles que bateram impiedosamente e tiraram as conclusões mais estapafúrdias sobre mim sem nem ao menos tentar entender o que eu estava falando, ou saber quem eu sou. A maior parte dessas agressões vieram de quem achou que eu era uma riquinha reclamando de não poder “blablazar” sobre minha vida boa. Mais diferente de mim, impossível! Mas acabei relaxando, porque vi que aquela pessoa de quem estavam falando não era eu, e que as pessoas precisam criticar para provar algo para si mesmas, e não estão mesmo interessadas em saber quem eu sou. Aí quem me conhece (pessoalmente mesmo) adorou o texto, porque entendeu de quem estava vindo e compreendeu o ponto de vista que eu estava colocando.

A vida em sociedade não seria, afinal, mais construtiva e melhor para todos se tentássemos entender o que motiva cada uma daquelas pessoas que não conhecemos a fazer o que fazem? E, entendendo, não encontraríamos soluções boas para todos? Ao entender que uma mãe não ajuda o filho com a lição de casa porque ela tem três trabalhos para conseguir comprar comida para ele, em vez de simplesmente apontar o dedo na cara dela, não nos auxiliaria a pensar em uma escola pública em período integral, em que o aluno faz lição com acompanhamento na escola e tem mais refeições fora de casa?

E se parássemos de passar a mão na cabeça daquela amiga que vive incorrendo nos mesmos erros, como por exemplo se apaixonar por caras com o mesmo perfil que a fazem sofrer, não seria esse um avanço para ela?

Estava há tempos planejando esse post, com medo de soar uma piração sem fim. Mas o intuito é só parar para pensar se não somos muito duros com quem gostamos muito (aquela mãe que não dá crédito e só critica o que o filho fala, mas se uma cliente ou amiga falar o mesmo, ela ouve e concorda), ou o contrário, muito condescendentes. E também se a vida não seria mais leve se tentássemos entender o ponto de vista daquele de quem não gostamos ou não conhecemos, sem precisar concordar ou virar amigo da pessoa. Será que é possível?

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Publicado em 30/08/2012 por e marcado , , , , , , .
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