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Sobre coisas irritantes e inquietantes

Carros também têm personalidade

Por Carmen Guerreiro

 

Esse post é para você que está se preparando para sair do trabalho e encarar aquele trânsito delicioso de sexta-feira.

Eu tenho uma teoria, aperfeiçoada ao longo dos anos com a ajuda do marido, sobre o comportamento padrão dos carros de acordo com seu modelo e sua marca. Antes de qualquer comentário, quero acalmar os ânimos dos exaltados, deixando claro que isso é uma brincadeira e que, obviamente, não é uma pretensão de teoria comportamental determinista. Ou seja: é claro que não é uma regra, é só uma besteirinha que inventei – mas que juro que funciona na maior parte das vezes – para passar o tempo no trânsito. Pois então vamos lá.

Não dizem que os cachorros são a cara de seus donos? Eu acho que os carros também são. Depois de passar muita raiva no trânsito, seja atrás do volante, no banco do passageiro ou como pedestre, que sou antes de qualquer coisa, percebi que determinadas atitudes estavam relacionadas quase sempre ao mesmo modelo e marca de carro. Sem mais delongas, vou aos principais e mais certeiros:

O Corolla e o Civic: as banheiras empacam-trânsito

Eles precisam abrir até a segunda ou terceira faixa para fazer a curva, pois acham que são uma carreta ou um ônibus. São lentos, mas não se iluda: eles não te dão passagem. Ainda mais se o seu carro for popular. Os seus donos são em geral homens que usam roupa social, talvez administradores, que falam muito no celular dirigindo e provavelmente têm um cargo bom na empresa, não ótimo, e querem um carro urbano e confortável, dentro do qual possam se isolar do mundo e fingir que os outros no trânsito não existem. Dificilmente você verá um artista ou alguém da área de comunicação (músico, DJ, publicitário, jornalista, designer) dirigindo um desses, e não é pela faixa de preço. No farol amarelo, já tratam de parar o carro e você tem que se virar para parar atrás. No farol vermelho, preferem parar antes e deixar um espaço para três carros vazio do que parar ao lado de um caminhão (e às vezes ônibus). Mas devo dar o braço a torcer: são certinhos para algumas coisas e até dão seta.

As SUVs: olhem como eu sou grande

A sigla em inglês para Sport Utility Vehicle, os utilitários esportivos no Brasil, designa os carros de quem eu tento fugir no trânsito. Seus motoristas podem ser homens ou mulheres, mas são invariavelmente folgados, agressivos e egoístas. Já passaram a categoria do Corolla: têm muito dinheiro para comprar um carrão (literalmente) e por isso acham que têm mais direitos que os outros no trânsito. São espertões e espaçosos: nunca sentem que as regras se aplicam a eles, por isso não dão seta e em geral estão envolvidos em “fechadas”, andar pelo acostamento, pegar duas vagas e andar no meio de duas faixas. Mas precisamos entender, né gente? É que eles são MUITO grandes. O problema é que os donos têm um ego tão gigante que acham que o carro é três vezes maior do que na verdade é, e acabam tomando um espaço que não precisam ocupar.

Os sedans menores: limite máximo de velocidade

Quando vejo a faixa da esquerda parando sem motivo aparente, já imagino que na frente da fila de carros está um Corsa Sedan. E vou dizer que na maioria das vezes, o palpite está certo. Às vezes é um Siena, versão da Fiat, ou um Marea, mas na maior parte das vezes é um Corsa Sedan, mesmo. Em geral quem dirige é alguém bem tranquilo, classe média, sem pressa para nada. Muitos idosos também gostam desse carro. É carro de domingueiros 24 horas por dia, 7 dias por semana. Provavelmente três carros no trânsito ficam presos no farol vermelho porque, quando ele fica verde, o Corsa Sedan demora no mínimo três segundos para perceber, e segura todo mundo atrás. Preciso confirmar, mas acho que existe uma trava de segurança no carro que não o deixa passar de 40km/h. E na hora de fazer a baliza? Se você estiver esperando atrás, desligue o motor.

O Golf: na velocidade da luz (do neon do carro)

Os motoristas dos Golfs são invariavelmente folgados, no top da lista da “folgadice” humana, não só no Brasil mas em todos os países que já visitei e que vi Golfs. Em geral são o carro do playboy e ele gasta muito dinheiro com apetrechos para deixar o veículo brega no último. São quase sempre homens. Esses motoristas têm uma necessidade incontrolável de costurar o trânsito, encostar atrás do seu  carro na faixa da esquerda para que você dê passagem (mesmo que você esteja no limite de velocidade), cantar pneu, tocar músicas em um volume ensurdecedor e… gostar da cor amarela. Já viram cor mais feia para carro do que amarelo? Primo dele é o Fiat Stilo, que é um Gold wannabe e tem as mesmas atitudes (e também vem na cor… AMARELA!). Quando o farol fica verde e ele está na frente, some no horizonte que nem foguete. Melhor assim do que na maioria das vezes, quando prefere furar os faróis vermelhos. Ao contrário dos outros que citei, que ignoram os outros, esses motoristas precisam muito chamar atenção para si e não querem passar despercebidos. E têm muita pressa para chegar não sei onde. Na casa da mamãe, que lava suas roupas?

Os lindinhos importados

Sabe aqueles carros que todo mundo para para ver passar? Que causam inveja até em quem não se importa com carros? Aqueles que você dá distância do seu carro para não arriscar um prejuízo que consumiria de uma só vez o montante que você está financiando seu apartamento? PT Cruiser, todos os Mini, Fiat 500 (o Cinquecento)… Eles são como aquelas meninas populares que sabem que são bonitas e ricas, e por isso precisam ser admiradas. São princesas. Por isso gostam de desfilar na rua. Não hesitam em trancar a rua ao parar na faixa dupla para deixar o carro no vallet, mas se o farol está fechando e você devagar atrás deles, também não titubeiam em acelerar na última hora e passar, deixando você parado no vermelho por causa deles. Não são tão lentos como os sedans, mas fazem questão de marcar sua presença com classe. Nunca correm, nunca estacionam na rua, nunca fazem manobras arriscadas. Eles devem ser pessoas ou muito felizes, ou muito tensas.

Existe mais uma porção de categorias que ficamos criando para nos divertir, mas essas são as principais. Também costumo brincar com o meu marido falando que o Kadett, nosso carro (que antes era só dele), é de folgado casca grossa, aqueles com quem ninguém mexe. Quando eu dirijo o carro, mesmo quando faço uma barbeiragem sem querer, ninguém reclama: todo mundo tem medo!

Para não levar uma lição de moral com essa brincadeira: sim, esses são estereótipos. Não, não são uma regra. As pessoas criaram estereótipos para criar padrões que se repetem e que refletem uma experiência anterior do indivíduo. Eu criei essa teoria-brincadeira porque ela se confirmou muitas vezes para mim. E conheço algumas pessoas que são donas de carros como esse e confirmam o estereótipo (mas criei a teoria antes de conhecê-las ou delas comprarem os tais carros). O erro do estereótipo não é a sua existência, é que não se tenha a cabeça aberta para dar a chance do objeto/pessoa provar que não se encaixa naquele estereótipo.

Termino essa brincadeira com a cena do George Clooney no filme Amor Sem Escalas (tem menos de um minuto, vale a pena ver:

Stereotypes from Marc Jähnchen on Vimeo.

Tradução:

Ryan: Bingo, Asiáticos

Natalie: Você não está falando sério.

Ryan: Nunca fique atrás de pessoas viajando com crianças. Eu nunca vi um carrinho de bebê ser dobrado em menos de 20 minutos. Os velhos são piores. Seus corpos estão cheios de metais escondidos, e eles nunca parecem apreciar o pouco tempo restante que eles têm na Terra. Aqui está (aponta para uma pessoa com aparência de árabe). 5 palavras: Aleatoriamente selecionado para inspeção adicional. Asiáticos: eles carregam malas leves, viajam eficientemente, e tem uma paixão por sapatos slip-on [saem facilmente]. Não tem como não amá-los.

Natalie: isso é racista.

Ryan: Sou como a minha mãe. Eu crio estereótipos. É mais rápido.

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Publicado em 17/08/2012 por e marcado , , , , , .
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