AnsiaMente

Sobre coisas irritantes e inquietantes

Mal-educados, sim

 

Por Carmen Guerreiro

 

Em geral eu escrevo sobre coisas que me irritam, mas hoje vou escrever sobre algo que me deixa feliz: saber que existe gente por aí não só com boas ideias, mas que as colocam em prática (e de um jeito inovador e bem humorado, ainda por cima!). É o caso desse movimento que descobri hoje, o Sou Mal-educado, que se define como uma “guerrilha criativa contra a ocupação indevida do espaço público”.

Em outras palavras, as idealizadoras do movimento (a designer Bea Correa e a jornalista Patricia Bromirsk) e outras pessoas se juntaram para criar adesivos que simulam balões de quadrinhos com frases como “sou mal-educado.  Estaciono o carro na vaga de deficiente e idoso”, “aqui falta uma lata de lixo” e “sou mal-educado. Estaciono o carro na calçada”. E esses adesivos são colados em carros e postes espalhados pelo Rio de Janeiro.

O motorista acredita em Jesus, mas não no respeito ao próximo. Contradição!

Parece simples, não é? E como faz diferença. Ou vocês não acham que os adesivos nos carros constrangem os motoristas mal-educados? E aqueles nos postes não fazem os outros pensarem sobre como aquele espaço deveria ser melhor cuidado?

Campanhas (se é que podemos chamar disso) como essa, que nascem das pessoas – independentes de organizações, empresas ou do governo – têm muito poder, porque mostram que o individual tem força e também faz a diferença. Por outro lado, iniciativas criativas como essa superam de longe campanhas públicas e outras politicamente corretas que têm pouco apelo e por isso pouco fazem diferença. Não me levem a mal, eu acho importante que se invista em campanhas de conscientização e acredito no que elas pregam. Mas acho que apelos para o “amor ao próximo”, “trânsito gentil” e outras palavras bonitas e dignas de um roteiro de ursinhos carinhosos não atingem as pessoas como deveriam.

As pessoas não param na faixa de pedestres porque respeitam, mas porque levam multa. É triste, mas é verdade. Não deixam a esquerda livre na escada rolante do metrô porque viram a carinha feliz da placa seguida de uma mensagem. É porque os outros pedem licença (ou atropelam mesmo). Elas não param de sentar no assento preferencial ou estacionam nas vagas especiais porque veem uma placa e uma faixa falando sobre o direito dos deficientes, idosos e grávidas. Elas param quando são constrangidas. E é isso o que a Sou mal-educado provoca. Iniciativas como essa são um “clique” para quem observa, porque mostram que para ter seus direitos assegurados, todos têm deveres sociais a cumprir.

Poste na favela da Rocinha, cercado de lixo. Por que só bairros ricos têm latas de lixo?

Essa “guerrilha urbana” reflete tudo o que defendo aqui no blog e fora dele também (que bom, né?): que as pessoas questionem e façam algo sobre quem não sabe se portar em uma sociedade, que usem o espaço público de maneira a beneficiar todos, que pensem em seus deveres e não só direitos, que ocupem a cidade com arte, inovem e mobilizem as pessoas ao seu redor a se mexerem. Que chamem a atenção para o que não é justo.

Espero que isso possa inspirar muitas outras ações por aí!

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