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Sobre coisas irritantes e inquietantes

Deixar a esquerda livre para passagem: caso de atrofia muscular?

 

Por Carmen Guerreiro

 

Enquanto preparo um post sobre uma questão mais existencial, gostaria de falar rapidamente sobre um assunto pontual: a lógica da esquerda livre em escadas rolantes.

Qual é o bloqueio mental dos usuários do metrô em São Paulo (e imagino que em muitas outras cidades) para parar do lado esquerdo da escada rolante? Ou seria uma atrofia muscular que torna as pessoas incapazes de se mover para a direita? Já me incomoda ignorarem solenemente placas e campanhas pedindo para deixar a esquerda livre. Agora, e as pessoas que estão com pressa e precisam parar ou ficar pedindo licença para passar apertado onde o trouxa parou à esquerda? Nunca achei que fosse defender a “direita” em qualquer situação, mas essa é uma delas.

Poucos estão no metrô para passear, ao contrário dos shoppings centers. E entendo que, no desembarque do trem, é mais eficiente que os usuários ocupem a direita e a esquerda, visando evacuar o espaço mais rapidamente (mesmo neste caso, faria sentido que a esquerda continuasse sendo uma “via rápida”). Mas enfim: meu maior problema é com os folgados que poderiam muito bem conversar com o seu acompanhante do degrau de cima ou de baixo, colocar suas sacolas em outro degrau, ou simplesmente os que decidem parar à esquerda e deixar a direita livre, forçando quem quer passar a fazer um zigue-zague. Ou, pior ainda: parar à esquerda ao lado de outro usuário que está à direita, bloqueando totalmente a passagem.

Já me peguei algumas vezes, em dias ruins, atropelando essas pessoas que param do lado esquerdo. E não acho que estou certa. Mas é comum se deixar dominar pela raiva e acabar pecando pela falta de civilidade justamente quando nos revoltamos com a falta de civilidade dos outros. Como é possível uma pessoa ser tão alheia aos outros mesmo estando no meio de uma multidão? Porque a única resposta que posso imaginar de uma pessoa dessas é “dane-se quem está com pressa, eu fico onde quiser”. Isso é realmente complicado, porque a mesma pessoa vai exigir respeito e xingar os outros quando estiver com pressa, ou quando o que ela precisa fazer depender da cooperação de outras pessoas na sociedade.

Isso dito, não há muito o que acrescentar além de pedir que quem concorda comigo comece um movimento de pedir licença, constranger o paspalho que para na esquerda, falar com os amigos sobre isso. Não fiquem parados e conformados atrás dessas pessoas. A não ser que se torne algo cultural, é difícil mudar. Acho dignas as campanhas do próprio metrô, mas precisa de um movimento das pessoas, de baixo para cima. É como jogar lixo na rua: quem faz acha que o seu lixo não vai fazer a diferença, porque muitos outros também jogam. Mas a partir do momento em que quase ninguém joga e aquela ação ganha um sentido social ruim, a pessoa fica constrangida de ser diferente do grupo.

Quero também aproveitar e estender minha reclamação e englobar escadas e ruas. Nas escadas, a comparação com escadas rolantes é óbvia: com a diferença (e agravante) de que cada um sobe em um ritmo diferente e muitos cansam no meio do trajeto, transformando a necessidade de ultrapassagem ainda maior. Em relação às rodovias (ruas, avenidas, alamedas etc.), eu gostaria que, em um mundo ideal, a esquerda fosse de fato a faixa para quem quer ultrapassar e andar no limite de velocidade. Poucas coisas me irritam mais do que um veículo à esquerda andando a uma velocidade metade do limite estipulado. E as pessoas que querem andar mais devagar à direita (e estão no seu direito) acabam dificultando  uma ultrapassagem (que de qualquer forma seria passível de multa), e os carros vão diminuindo a velocidade atrás do “empatador da esquerda”, gerando, lá atrás, o trânsito de que todos reclamam.

A conclusão é: você não precisa ter pressa. Mas precisa respeitar que os outros podem ter, e que o espaço público deve servir eficientemente a todos. Chega de egoísmo! Direita já!

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Publicado em 04/07/2012 por e marcado , , , , .
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