AnsiaMente

Sobre coisas irritantes e inquietantes

Trânsito gentil? Cadê?

 

Por Carmen Guerreiro

 

Na véspera de um feriado no ano passado, eu estava voltando para a casa do meu noivo (hoje marido) no meu carro e ele vinha atrás de mim no dele (nós estávamos com o meu e paramos no metrô para ele pegar o carro dele, que tinha ficado estacionado lá durante o dia). Era tarde da noite, seguíamos em uma grande avenida de São Paulo e o trânsito estava livre, por isso a velocidade marcava 70km/h, limite da época. Na minha frente tinha uma moto, trafegando no meio da faixa, e na frente dela um Clio (vou falar a marca para facilitar a história com tantos veículos envolvidos). Foi então que, sem qualquer aviso, o carro que estava na frente desse Clio PAROU. Não quebrou, não teve problema. O motorista estava fazendo uma brincadeira com um amigo e afundou o pé no freio. Mesmo com a distância entre todos os carros, o acidente foi inevitável: o Clio conseguiu frear e não bater no carro que parou. Mas a moto que vinha atrás não conseguiu frear, nem eu, nem meu noivo, gerando um engavetamento de quatro veículos (e mais um quinto atingido lateralmente).

Lembro-me da cena em câmera lenta, mesmo tendo acontecido em vigésimos de segundo. Vi o motociclista voando na frente do meu carro e, inacreditavelmente, entendi para que lado ele ia cair e joguei o carro para o outro. Quando todos descemos do carro, ele estava bem, sua moto embaixo do meu carro e ele caído do outro lado. Eu tremia e até hoje penso que, por causa daquele reflexo, aquele homem não morreu embaixo do meu carro.

“Seu imbecil! Você viu o que você fez???” – gritou um motorista que estava parado no farol, na faixa de conversão do sentido contrário, e viu tudo acontecer.

O “imbecil” causador do acidente se assustou e, já que seu carro estava ileso, cantou pneu e fugiu da cena. O motoqueiro foi para o hospital e nós, junto com o casal do Clio, ficamos até às 4 horas da manhã entre aguardar os bombeiros, depois a polícia, e depois registrando o B.O. na delegacia e aguardando notícias do motoqueiro. Ele ficou bem.

Esse é um dos inúmeros exemplos com os quais eu poderia introduzir o assunto do caos e egoísmo no trânsito, mas qualquer outra pessoa que mora em grandes cidades como São Paulo tem também um sem-número de histórias como essa.

Eu adoro dirigir. Adoro! Mas perdi o gosto de fazer isso em São Paulo. Em uma cidade que conquistou a marca de 7 milhões de carros há um ano (mesma quantidade de pessoas no Paraguai e um pouco menor do que a população suíça), uma simples garoa significa que seu trajeto irá demorar pelo menos o dobro do tempo planejado. Não existe mais a “hora do congestionamento”. Essa hora é toda hora. Os caminhos alternativos estão abarrotados. Os faróis são dessincronizados. Estacionar é uma aventura que demora muitas vezes mais tempo do que o caminho até o destino, e a alternativa a isso é sucumbir à exploração dos estacionamentos, que em determinados pontos da cidade já cobram mais de um salário mínimo para os mensalistas.

Essa é a situação dos carros. O problema todo é que dentro deles existem pessoas. Pessoas que afundam o pé no freio no meio de uma avenida, que não usam a seta, que ignoram a faixa de pedestres, que fecham as outras, que seguram o trânsito com sua morosidade ou que querem passar por cima de todos como um Bulldozer.

Pessoas são sujeitas a erros. Mas quando esse erro é cometido de dentro de uma armadura de uma tonelada, a consequência pesa na balança. Quando se tornou normal jogar uma máquina dessas para cima de outra pessoa? Colocando dessa forma, parece um exagero. Mas parece que o estado de consciência do motorista muda quando está diante do volante. É uma catarse coletiva: aquele é o momento de descarregar a raiva e o estresse do dia nos outros. Um ótimo exemplo disso é o vídeo do Pateta, da Disney, que é um cidadão cortez e educado e se transforma em um monstro quando dirige.

Em resumo, todos estão insatisfeitos com o trânsito. Mas o engraçado é que o problema é sempre do outro! O outro sempre está devagar demais, ou apressado demais, ou é o outro que não quer dar passagem, é ele que entra sem dar seta. Nunca é a gente que não sabe andar na faixa, ou que demora para fazer a baliza. É o outro que buzina um vigésimo de segundo depois que o farol abriu, mas também é quem demora mais de cinco segundos para acelerar o carro quando a luz fica verde. É o outro que fala no celular e não presta atenção no trânsito.

Se é sempre o outro que está errado, então todos estariam certos e o trânsito seria gentil e tranquilo. Então pare para pensar naquele dia que você estava procurando um endereço em um bairro desconhecido e levou uma buzinada porque ia devagar demais. A mão na buzina em outras situações é a sua. Nesse caso, o outro motorista é que está “estressado”. E quando você vira em uma rua sem dar seta, e o pedestre quase que começou a atravessar porque achou que você ia reto? Aí é uma coisinha boba, né? E quando você achou que a fila de carros ia andar, mas o farol fica vermelho e você fecha o cruzamento? Se é outra pessoa, é caso de apedrejamento e cusparada no vidro! E quando o carro do lado estava no seu ponto cego do retrovisor, e você avançou para a faixa do lado e tomou uma buzinada? “Poxa, eu não vi.” E se a vaga está apertada na hora de estacionar e você precisa contar com a paciência daqueles que querem trafegar pela rua? “Ué, tenho que estacionar, oras”, você pensa, mas não quando é você aguardando. Se você está parado há 30 minutos em um quarteirão e decide não deixar um carro sair de uma vaga, estacionamento ou de uma rua perpendicular, é porque “poxa, eu tô aqui há uma cara, não vai entrar na minha frente não”. Mas e quando é você que fica dando seta e, a não ser que jogue o carro para entrar, ninguém te dá passagem?

Se fôssemos listar todos os casos desse tipo, esse post não teria fim. Mas a sugestão é se colocar na posição do outro e tentar ser mais prudente no trânsito. Não quero aqui dar uma aula de CET, já que eu justamente decidi dirigir menos porque sou mais uma “Pateta no trânsito” (precisa assistir ao vídeo lá em cima para entender). Mas vamos tentar ter o mínimo de bom senso: usar a seta, ficar na faixa da esquerda só se você for andar no limite de velocidade, não arriscar fechar o cruzamento, cuidar para não parar na faixa de pedestre, ser parcimonioso na hora de dar passagem (também não pode ser “passa boi, passa boiada”. E mais um monte de outras coisinhas que a gente sabe, mas que ignora porque, no meio de tanta selvageria no trânsito, parece que de nada adianta. Mas adianta, sim.

Do meu lado, vendi meu carro. O outro ficou sendo o nosso carro da família, e fica a maior parte do tempo estacionado. Nos mudamos para um bairro com amplo acesso a meios de transporte públicos (e com imóveis mais baratos do que o anterior, que era longe de tudo) e a transformação da qualidade de vida foi impressionante. Voltando ao caso do início do post, não quero pensar na virada que minha vida teria dado se, por causa de uma imprudência de outro no trânsito, o meu carro tivesse tirado a vida de uma pessoa.

O carro é uma invenção fantástica, mas, como qualquer outra, precisa ser usada com equilíbrio. Tem gente que precisa usar todos os dias porque mora em lugares de difícil acesso, às vezes outras cidades. Ou que precisam transitar tarde da noite ou cedo demais, ou ainda que carregam objetos. Há quem seja visado e precise trafegar com mais segurança, eu entendo. E tem aqueles que precisam do carro como instrumento de trabalho, oras! Eu não, e mais um monte de gente também não. Eu arriscaria dizer que a maioria não precisa usar o carro para tudo e todos os dias. Então para que 7 milhões de carros, minha gente?

Aqui em casa, nós usamos o carro para quatro coisas: transportar a criança, sair à noite, fazer compras e viajar (dependendo do destino). De resto, é tão massacrante assim encontrar outras alternativas de transporte? Seja a pé, de bicicleta, moto, ônibus, metrô ou qualquer outro meio. Por que não usar o bom senso e decidir qual é o que melhor se encaixa para cada situação? Por que precisa depender do carro e encalacrar as ruas da cidade cada dia mais?

Não adianta ficar falando que “o trânsito está impossível” e que “as pessoas são agressivas demais no trânsito”, se você faz parte do mesmo grupo.

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