AnsiaMente

Sobre coisas irritantes e inquietantes

Profissão: comentarista (de internet)

 

Por Carmen Guerreiro

 

Eu sou uma daquelas fãs incondicionais da internet. Eu fazia trabalho de escola usando enciclopédia e adorava, mas hoje não sei como é possível viver sem a web, especialmente por causa da minha profissão. Avançamos muito como usuários e hoje começo a ver uma maturidade maior no que é publicado na rede. Um dos maiores trunfos da web 2.0 é, mais do que nunca, ter consolidado o usuário como produtor de conteúdo (exemplo disso é esse blog). E tem muita gente produzindo coisa boa, mesmo que não profissionalmente.

A possibilidade de interação com esses conteúdos, seja por compartilhamento ou por comentários, ampliou a influência das pessoas para determinar o que é popular ou não na web. Mas como todo fenômeno tem seus efeitos colaterais indesejáveis, observo que também se consolidou na internet a falta de bom senso nos comentários dos usuários (assunto que levantei no post A caixa do supermercado e a mulher rica).

Afinal, o intuito de comentar não é poder colocar sua opinião, ver o que os outros pensam sobre o assunto e debater? Mas me parece que, na maioria dos casos:

1. Poucos estão interessados em conhecer o ponto de vista dos outros;

2. Quase ninguém se coloca no lugar do outro para entender sua opinião;

3. A maioria não lê o texto direito, só lê o título e o primeiro parágrafo e parte para a ignorância (só pode ser, porque a maioria dos comentários toscos demonstra que a pessoa não leu ou não entendeu o texto);

4. Muitos acham que, ao escrever em maiúsculas (com Caps Lock), seu comentário vai ficar mais visível (ou sei lá o que pensam, só sei que é perturbador);

5. Uma boa parte dos “comentaristas” está mais preocupada em brigar e gritar com os outros coisas que não fariam sem a proteção do anonimato/pseudônimo e longe da tela;

6. Um bom número lê e comenta só os comentários, e não o texto.

A lista continua, mas o meu ponto é: eu sempre gostei de ouvir o que os outros têm para falar, seja isso na mesma linha ou diferente do que eu penso. Mas como vocês já devem ter percebido, sou adepta do bom senso. Por isso acho que quem quer participar precisa ser civilizado, tentar entender o ponto de vista do outro e, acima de tudo, saber argumentar suas ideias. Afinal, o que adianta xingar e gritar sem embasar sua opinião?

Isso é perigoso, é a base do fanatismo.

Não à toa o que mais se vê nos comentários é a destilação da intolerância e da violência. Os de pior calão quase sempre são de pessoas que não apenas ignoram (ou menosprezam?) as regras da língua portuguesa, como demonstram pouco ou nenhum apreço pela educação, bom senso, cidadania, direitos humanos e convivência em sociedade. Exemplo brilhante, que já usei em outro post, é a série de posts do jornalista e cientista político Leonardo Sakamoto sobre a intolerância nos comentários feitos no seu blog (aqui estão as partes um, dois e três). Outro ótimo exemplo, falando sobre os “talifãs” (fãs + talibãs, um tipo ainda mais específico de comentarista agressivo de internet), eu encontrei no blog do jornalista Maurício Stycer.

Seria isso uma catarse para aqueles que são inibidos e introvertidos em público? Ou apenas uma forma de chamar atenção? Difícil saber.

A maior prova da covardia dos comentaristas agressivos é que quase sempre escrevem no anonimato, com um pseudônimo ou um email falso. Vi isso também aqui no blog! Quem elogia coloca nome e email, quem xinga inventa qualquer dado para burlar o formulário. Covardes. E por isso resolvi fechar o blog para comentários: não tenho paciência para essas pessoas. Se não querem ouvir ou tentar entender a opinião dos outros, por que eu seria obrigada a aturar seus gritos vazios? Mas a vantagem de ter uma página no Facebook (vejam a página do AnsiaMente!) é que as pessoas precisam mostrar a cara, expor seu perfil e mostrar para os amigos o nível dos seus comentários.

Do jeito que estamos, cheguei ao ponto de, ao ler uma matéria em um portal jornalístico ou um post de blog, ignorar os comentários para não passar raiva com o nível de asneira publicada praticamente sem filtro (em geral os sites bloqueiam somente palavrões). Não em levem a mal: é revolucionária a possibilidade de todos interagirem em torno de uma informação, independentemente da distância que os separa. Mas acho que a liberdade de expressão é preciosa demais para ser sujada desse jeito, e explico isso melhor nesse post.

A dica é: não tem nada de bom para acrescentar? Fica quietinho.

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Um comentário em “Profissão: comentarista (de internet)

  1. Pingback: Os trolls estão soltos! « AnsiaMente

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