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Sobre coisas irritantes e inquietantes

O que eles querem é uma estagiária

Por Carmen Guerreiro

Meu marido tem se incomodado com uma situação no trabalho: querem contratar uma estagiária.

Explico: diante da necessidade de reestruturar sua equipe, ele sugeriu em uma reunião que a empresa contratasse um estagiário. A reação dos colegas foi unânime: “Opa, mas tem que ser estagiária!”, seguida de risadas e piadas troglodíticas. As mulheres no recinto riram também.

“Parece um ritual uga-uga”, ele me confidenciou ao chegar em casa, visivelmente incomodado.

O constrangimento, segundo ele, continuou durante dias toda vez que a contratação de um estudante era mencionada. Até que em uma dessas ocasiões, ele não se aguentou. Diante de mais um comentário “a gente tem que chamar uma estagiária”, ele respondeu: “vamos contratar quem for mais competente para a função”.

Diante do corte, seu colega ficou constrangido e começou um discurso de como as mulheres eram importantes, e que precisam ser valorizadas e que essa era uma oportunidade para elas (serem estagiárias), e que estão afiadíssimas (mais que os homens, segundo ele) no mercado de trabalho.

Os homens, em sua grande magnanimidade, dão flores às mulheres no Dia da Mulher e oferecem a elas um cargo de estagiária. Mas a imagem na cabeça deles é daquelas moças caricatas de Escolinha do Professor Raimundo e afins, com micro saias e diploma em fazer café. A questão é: se estivessem fazendo isso para valorizar a mulher (que benevolência esse favor que fazem ao sexo feminino!), por que isso não acontece em cargos de gerência e direção?

Não posso reclamar: na minha área (que é a mesma do meu marido), não vejo diferença salarial ou de oportunidades entre homens e mulheres (fora essa questão dos estagiários). Mas a questão é: se na hora de contratar uma pessoa para um cargo de edição, direção ou algo do gênero, vence o mais apto para o trabalho, por que na hora de chamar um estagiário os homens muitas vezes são excluídos de cara? A estagiária mulher por acaso está lá para ser observada e assediada (ainda que só com os olhos)? Ou seu trabalho não vale tanto, vale mais sua aparência?

Conversando comigo depois do episódio todo, meu marido desabafou. Disse que se trocasse “homem” por “negro” (não pode contratar homem, tem que contratar mulher / não pode contratar um negro, tem que contratar um branco), aí seria um escândalo, mas que ele sentia que o absurdo era o mesmo. “Mas aí os caras iam falar que eu estou exagerando, porque falar esse tipo de coisa de mulher é normal entre os homens. Até as mulheres dão risada”, ele reclamou.

Brasileiro é mestre em dizer que não tem preconceito. Mas precisa colocar uma lupa no seu cotidiano para perceber que seu preconceito é travestido de “deixa disso”. Fico ofendidíssima com esses rituais machistas (que beiram o tribal). Parece que, na cabeça dos homens, isso tudo é um grande elogio às mulheres. Afinal, por que ficar ofendida por ser chamada de gostosa na rua? É um elogio! Ah, essas mulheres são muito sensíveis…

O pior é que isso tudo não fica na piada. Tanto eu quanto o meu marido sabemos que, ao fim e ao cabo, sim, vão contratar uma estagiária.

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Publicado em 03/04/2012 por e marcado , , .
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