AnsiaMente

Sobre coisas irritantes e inquietantes

Sejamos mais malas!

 

Por Carmen Guerreiro

 

Começo esse blog com o tema que é intrínseco à existência dos blogs e, a meu ver, é um dos mais polêmicos da nossa sociedade: liberdade de expressão. Sempre que surge uma discussão sobre isso na mídia ou numa roda de amigos, é difícil não ver pontos válidos de ambos os lados dos argumentos. Os que são contra caem em contradições facilmente porque, no fim, defendem só os seus gostos, valores e pontos de vista. A liberdade dos outros pouco importa, eles têm é que seguir a sua.

E tem uns que defendem liberdade de expressão a todo custo. Mas aí os neonazistas querem fazer um grupo em uma rede social e aquilo não pode (eu acho que não pode mesmo, mas vamos pensar friamente nos argumentos lógicos). Sendo jornalista, peguei um certo bode da tal “liberdade de expressão”, porque me parece a 5a emenda da constituição americana. Aquela bandeira, o cartão de “saída livre da cadeia” do Banco Imobiliário que você levanta para se safar depois que empurrou todos os limites e sacaneou um monte de gente.

Peraí, mas assim fica parecendo que eu sou contra a liberdade de expressão. Pelo contrário. Ela é intrínseca à condição humana e não pode ser negada. Acho que não só os jornalistas, mas todos que fazem parte de uma sociedade tem esse direito humano e ele deve ser defendido a qualquer custo. Mas poucos sabem usá-lo com bom senso. Para mim, liberdade de expressão é poder publicar (no sentido de tornar público, externalizar) o que você acredita sem, com isso, ferir a liberdade do outro.

Chego então ao meu objeto do primeiro post, a música. Não vou cair no clichê de falar “gosto não se discute”, mesmo porque não concordo com isso. Mas é fato que cada um tem o direito de ter seu gosto musical. Viva a diversidade. Certo? Pois bem.

No último ano novo, viajei com marido + amigos para o litoral norte de São Paulo. Não era uma das praias mais badaladas, mas sabe-se que não tem como escapar da muvuca nessas épocas do ano. Eis que estamos todos na praia, alguns conversando, outros lendo, outros simplesmente lagartixando sob o sol, quando um som absurdo, vindo da calçada, faz com que não apenas nosso grupo, mas todos parem o que estão fazendo para olhar e tenham que inclusive levantar o tom de voz para conversar.

Um indivíduo instalou aqueles mega aparelhos de som no porta-malas do seu carro e abriu a porta voltada para a praia, mostrando toda a potência do equipamento que deve ter custado o mesmo que o carro. Nota: quase que invariavelmente esse tipo de pessoa ouve música ruim (ruim sob o meu ponto de vista, é claro). Enfim, o sujeito e seu amigo saem do carro e ficam encostados na lataria só olhando para a praia, parece que orgulhosos de chamarem tanta atenção. Nota 2: invariavelmente, quem liga o som altíssimo acha que está arrasando.

Mas a questão é que podia até ser música do nosso gosto, não importa. Estávamos todos em um local público e essa pessoa quis sobrepor uma vontade dela – em nome da liberdade de expressão – sobre a dos outros. E por que todos têm que ouvir a música que ele quer tocar? Fico me perguntando se isso passa pela cabeça dessas pessoas.

Já cansei de ouvir outros indignados como eu com os celulares tocando música alta nos ônibus coletivos de São Paulo. Quase sempre é funk carioca. Quase sempre a pessoa é mal-encarada suficientemente para ninguém pedir para ela respeitar as pessoas ao seu redor. Se pede, leva patada (em palavras ou tabefes, mesmo). Aí vi, em uma discussão no Facebook, uma menina dizendo “não tem lei mais importante pra fazer do que proibir música no ônibus?” (acho engraçado essa noção rasa de política do brasileiro médio, que acha que tudo é culpa do presidente e que todos em Brasília trabalham em uma lei por vez, e tem que ser em ordem de grandeza. A ignorância anula as críticas que as pessoas fazem à política, ainda que sejam válidas, o que não é o caso dessa). Pois eu acho de extrema importância proibir (aliás, já é proibido, mas no Brasil tem essa coisa de “lei que pega” e “lei que não pega” e que precisa ser reafirmada como se fosse nova) uma coisa dessas. Ninguém é obrigado a ter empurrado pela garganta (ou ouvido, no caso) um som que não quer, não gosta ou simplesmente não está com vontade de escutar. Não importa se é a Tati Quebra Barraco ou o Chopin.

E não importa se é a praia ou se é a sua casa. Na última semana, todos os dias um vizinho do prédio ao lado liga seu funk em um volume bizarro. O som é tão alto que reverbera na parede do meu prédio. De dentro de casa, não ouço a minha música (em volume normal) ou sequer consigo trabalhar. Então a questão extrapola o espaço público.

E se você reclama, além do desgaste – porque essas pessoas não costumam ser razoáveis – ainda tem o fato de você ser “o mala”.

Pois sejamos malas. Esse blog é um desabafo de uma pessoa que, como muitas outras, engole sapo diariamente na cidade de São Paulo ou em outros lugares (e fica remoendo isso internamente até virar uma úlcera, ou desconta na família e no cachorro). Isso porque todos querem seus direitos, todos precisam afirmar seus valores e fazer valer suas vontades e gostos, mas nunca querem aceitar o mesmo dos outros ou assumir seus deveres. Esse blog é sobre isso. As relações estão mais agressivas e parece que não há bom senso em ninguém. Então me resta fazer terapia de blog e colocar para fora essa ansiedade.

PS: ninguém foi falar com o moço do carro na praia, nem eu. Ele ficou uma hora ouvindo sua música ruim e depois trancou o carro, deixou ele estacionado em um local proibido e foi fazer outra coisa da sua vontade suprema.

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5 comentários em “Sejamos mais malas!

  1. Patricia Andrade
    18/03/2012

    No Brasil, a separação entre publico e privado é sofrível. Gilberto Freire já explica isso em “Casa Grande e Senzala”. Esse comportamento vem desde nossos primórdios coloniais e persiste até hoje em todas as formas de corrupção. Esse comportamento muda aos poucos. E só muda com a pressão dos grupos sobre a sociedade. Então não podemos desistir de ser malas. Um dia a coisa muda…

  2. Adele Cifuente
    29/05/2012

    Adorei seu blog. Por favor, continue sendo muito mala.

    • carmenguerreiro
      29/05/2012

      Obrigada, Adele! Adorei! =) Continuarei sendo mala, pode deixar (acho que não consigo ser diferente…!)

  3. Rodrigo Rey
    04/06/2012

    Gostei da tática de guerrilha!
    Tem horas que inconveniência (no seu ponto-de-vista) só pode ser combatida com inconveniência (do ponto de vista do inconveniente), e uma dose destilada de cultura (que só atua a longo prazo).

  4. Pingback: Profissão: comentarista (de internet) « AnsiaMente

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Publicado em 18/03/2012 por e marcado , , , , , , .

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