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Sobre coisas irritantes e inquietantes

Sobre as manifestações em SP

Por Carmen Guerreiro

Já mencionei algumas vezes que moro no centro de São Paulo. No primeiro dia de protestos, ouvi gritos e explosões fortes. Corri até o quintal quando vi uma luz forte vinda do céu e iluminando o meu chão. Era o helicóptero da polícia. Corri de volta para dentro e entrei nos grandes portais da internet. Nada. Liguei a televisão e nada. Voltei ao quintal e disse ao meu marido: está acontecendo alguma coisa. Olhei para cima, para os prédios em volta, e todas as janelas estavam repletas de pessoas olhando para baixo, na direção da Avenida 9 de Julho, atrás do meu quintal. Só entendi que era uma manifestação quando um vizinho, o mesmo que adora berrar “Vai, Corinthians!”, gritou: “Vai trabalhar, vagabundo!!!”

Eu entendi naquele momento que era um protesto.

Algum tempo depois conseguimos acompanhar o movimento pela televisão. E minha sensação do primeiro dia foi de descontentamento. O direito de se manifestar era legítimo. A causa, então, eu estava totalmente de acordo. Mas vi fogo, destruição, depredação. De outro lado, para variar, uma polícia totalmente despreparada. Uma das imagens mostrava um policial atirando balas de borracha a esmo e como uma metralhadora.

Não gosto de violência. Não acho que ela é justificável por nada, nunca. Mesmo se é a atitude de alguns, um movimento bem organizado precisa se responsabilizar pelo todo. “Mas eles também bateram!”, disseram outros. O que é isso, uma briga de irmãos de 5 anos? A violência é a única linguagem que a PM conhece, e ao mesmo tempo não é uma linguagem que permite o diálogo, logo não leva a lugar nenhum. Só termina em destruição.

Acho não só ineficaz como uma péssima estratégia terem usado a violência no primeiro protesto, porque:

1. A motivação inicial do protesto, a tarifa do transporte público, é uma causa com a qual a maior parte da população se identifica. Mas na hora que você usa a violência, simplesmente todo o resto para de importar para a maioria. Só olham para a violência. E isso coloca pessoas que poderiam estar a seu favor (porque concordam com seu objetivo maior e final) contra você por conta dos seus meios. Você perde a razão. Imagine em uma discussão, se você dá 3 argumentos ótimos que te dão a razão mas, no fim, a outra pessoa te irrita e você lhe dá um tapa na cara. Você se igualou a ela e admitiu que seus argumentos não eram suficientes para “ganhar” dela, por isso precisou apelar. E aí para a pessoa, os argumentos que você deu e que calaram a boca dela não importam mais, porque “você deu um tapa na minha cara, pô”.

2. Tudo o que foi depredado tem um custo, e isso é especialmente chato quando o dono do estabelecimento não é o governo. Por exemplo, um dono de banca. Aquilo tem uma consequência prática e um prejuízo real para ele. Quem é prejudicado dificilmente vai se juntar ao movimento. E acho certíssimo que as pessoas que destruíram arquem com os custos disso (assim como os PMs precisam ser punidos pelo que fizeram individualmente).

3. O governo dificilmente cederia a uma manifestação que resultasse em depredação, não importa se foram poucos que depredaram. Talvez reagissem melhor e aceitassem uma negociação diante de uma manifestação pacífica.

A melhor arma é sempre o antídoto do veneno. Se uma pessoa é mal-educada com você, o melhor é ser super educada e constrangê-la, falando: “Nossa, mas por que você está tão nervosa?”. Se alguém buzina para você no trânsito e te mostra o dedo do meio, mande um beijo. Se a polícia mostra que só conhece a língua do uga-buga, seja 100% pacífico.

Imaginem qual teria sido a reação geral se, em vez da depredação de alguns, os protestantes abraçassem policiais, colocassem as mãos para cima, jogassem flores, levassem chumbo paralisados? Seria uma imagem tão poderosa quanto a do professor que se colocou na frente do tanque de guerra na Praça da Paz Celestial (foto). A mensagem é “Eu não vou me calar e você não pode me ignorar. Mas não vou dialogar com você nos seus termos baixos.”

Cheguei a me perguntar se, sem a violência inicial, as manifestações teriam tomado o rumo e ganhado a visibilidade que têm hoje. Mas acho que sim. Com protestos quase todos os dias, trânsito parado e com uma atitude muito menos convencional (a pacífica), acredito piamente que sim.

Só que, depois do primeiro protesto, as coisas mudaram de figura. Especialmente porque as manifestações foram ganhando adeptos e diminuindo a violência, e porque a polícia foi, no sentido contrário, aumentando a violência a níveis incompreensíveis para um ser humano pensante. Não que exista um nível inteligente de violência, mas confisco de vinagre? Bala de borracha no olho? Cacetadas gratuitas e a esmo, em qualquer um? Afinal, qual é o papel da polícia? É manter a “ordem” ou manter o povo calado e quieto? O que faz um indivíduo desferir golpes com tamanho ódio em um cidadão? Raiva? De quê? O que faz uma pessoa querer ser um PM? Querer prender bandidos? Ou é a adrenalina de bater sem medida e a sede pelo poder de machucar sem punição?

“Não nos responsabilizamos mais pelo que vai acontecer”, disse o major Lidio Costa Junior. Isso me assustou tremendamente. Em primeiro lugar: vocês estavam se responsabilizando antes, polícia? E em segundo lugar: como um órgão que faz parte do Estado, que foi criado para manter as pessoas convivendo bem em sociedade e que foi imposto como órgão a ser respeitado PORQUE ele teoricamente tem a responsabilidade de proteger os cidadãos diz, em determinado momento, que “não vai mais se responsabilizar”? Quer dizer que pode matar, pode cegar, pode estraçalhar? Por quê? O que deu esse direito divino a eles?

Já participei de muitas manifestações na vida, e uma delas, quando eu estava na faculdade, me marcou especialmente por essa falta de medida da polícia. Estávamos em um grupo pequeno, de umas 30 pessoas talvez, e colávamos adesivos escritos Av. Águas Espraiadas sobre as placas da Av. Jornalista Roberto Marinho, que tinha acabado de trocar de nome. Era um protesto contra a mudança do nome e contra quem foi e o que fez Roberto Marinho. Pois bem. Não deu nem 10 minutos, uma viatura encosta. Lembro da cena em câmera lenta. Não foi perguntado quem éramos, o que fazíamos ou qualquer coisa do gênero. Os policiais arrancaram de suas fardas os seus nomes (eles são presos apenas com um velcro) e desceram o cacetete. Eu corri muito e não fui atingida. Isso é restabelecer a ordem ou mostrar que as pessoas precisam ser cordeirinhos senão levam pau? E quando você tira sua identificação, é o ato prático da fala do major ao dizer “não nos responsabilizamos mais”. O ato significa: tenho consciência de que posso ser punido por isso, logo, porque estou abusando do meu poder, vou tirar meu nome para que você não possa me denunciar.

Por que a polícia mentiu depois, dizendo que o tiro que acertou o olho da jornalista Giuliana Vallone ricocheteou do chão? Porque sabia que se fosse provado que foi intencional, haveria punição? Então por que não pensaram nisso antes de atirar? Porque não pensam? Ou porque “cumprem ordens” (argumento mais famoso dos nazistas)?

Eu e meus colegas, assim como os manifestantes do centro, de certa forma temos “sorte” (embora seja ridículo de falar de sorte nessa situação toda). Nas favelas e periferias, não é a bala de borracha que abre o “diálogo”. É tiro na cabeça que encerra. Antes de perguntar, atiram. Se é inocente ou não, se tem razão ou não, não importa. Quem abre a boca na Paulista, leva borracha. Quem abre a boca (ou está no lugar errado) onde o transporte público mal chega, leva chumbo. E tudo bem, não é mesmo? Tudo continua igualzinho e não há nada que possamos fazer. Porque não importa se um ou outro é punido: a instituição continua a mesma.

Falar que a PM precisa ser melhor preparada parece pouco diante de tantas manifestações de incompetência por parte deles. Todas as vezes em que a polícia é exigida em uma situação, mostra despreparo. Se a situação é grande e imprevisível, então, nem se fala. Os ataques do PCC há alguns anos foram apenas um aviso dos criminosos. Eles queriam mostrar para a população que a polícia é fraca e que, se eles quisessem, tomariam conta da cidade.

Mas voltando às manifestações. Na quarta à noite fui à casa da minha mãe e ela disse: “anota o que estou te falando, isso ainda vai ficar bem feio. A população não é idiota, está todo mundo emputecido com a situação atual.” Minha mãe fez parte do movimento estudantil durante a ditadura e, em geral, está certa nas suas previsões. Na quinta-feira, aquilo que ela disse se concretizou. Mais de 5 mil pessoas saíram às ruas pacificamente e foram recebidas com a violência militar. Minha mãe está revoltada porque se aposentou há um ano e tudo o que guardou e pagou de INSS durante a vida não estão permitindo que ela se sustente. E por isso ela está inconformada e se identifica com os protestos.

Vamos cair na real, minha gente: dá para ser tão obtuso assim e não perceber que, com as proporções que os protestos tomaram, não se trata de 20 centavos? Se trata de se fazer visível. De tentar ter alguma voz em um país em que só alguns mandam e se beneficiam. Quem aqui não está insatisfeito com a situação do nosso país? Inflação, violência, impostos, péssima distribuição de renda, péssimos serviços públicos (saúde, educação, transporte, segurança etc.), corrupção!!! Iremos aturar isso?

É fácil ir para Nova York e achar o máximo o sistema de transporte, o incentivo à bicicleta, a ocupação dos espaços públicos, os preços de tudo. Mas aí você volta e se conforma que o seu país é uma merda e a solução é sair dele? Aí é fácil dizer que o brasileiro é passivo, se você próprio não se mexe para nada e quer só usufruir da qualidade de vida de países que construíram algo melhor. E depois critica quem protesta. Não é meio esquizofrênico?

Por fim, queria colocar alguns argumentos imbecis de um lado e de outro que precisam ser jogados no incinerador:

- A mídia é golpista/é tendenciosa/está aliada ao governo: como jornalista, eu gostaria de dizer uma coisa. Ser parte da mídia é como fazer salsicha: se você souber como é feito, não come nunca mais. Mas peloamor, pessoal. Chamar todos os jornalistas de “mídia” é imbecil. É como falar que todos os árabes são terroristas. Existem milhares de jornalistas e de veículos diferentes. E aí existem cargos de direção em grandes veículos de comunicação que decidem, sim, que lado vai ser tomado. E é lógico que os jornalistas são tendenciosos, minha gente. São pessoas! Seria muita ingenuidade achar que a imparcialidade existe. O ideal é que os veículos se posicionassem em vez de fingirem que são imparciais. Por que a Veja não diz: “Oi, eu sou de ultra direita e é isso que vocês devem esperar de mim”? O complicado, para mim, é que grandes veículos como a Folha tenham em um dia execrado a manifestação e chamado os manifestantes de vândalos e, no dia seguinte (e em grande parte porque seus repórteres foram atingidos), mudem totalmente de opinião.

- “Melhor ir para as ruas do que ficar no computador”: eu li isso de uma pessoa do Movimento Passe Livre e fiquei impressionada com a pobreza do argumento. É muita ingenuidade achar que o engajamento das pessoas só acontece nas ruas. As redes sociais e a internet em geral são uma arma poderosíssima para as pessoas se organizarem, trocarem ideias, se informarem sobre o que está acontecendo no mundo, terem acesso a livros e artigos de todo o planeta. É lógico que tem quem senta no computador e só reclama e aponta o dedo. Mas não dá para falar que sentar na frente do computador é coisa de quem não se manifesta.

- “Por que não vão trabalhar, vagabundos?”: o argumento do meu vizinho já virou clichê e também é besta que só. Em primeiro lugar, muitas pessoas ali trabalham, sim. E quem não trabalha, tem menos direito de protestar? Por que são vagabundos? Porque estão lá nas ruas? Mas espera aí, vizinho, você não estava jogado no sofá vendo TV? Você pode ver sua TV e eles podem protestar, ué.

- “Os manifestantes são filhinhos de papai”: isso é uma coisa que eu não entendo. Se a classe média não faz nada, é acomodada. Se faz alguma coisa, é criticada porque “tem dinheiro” e não deveria reclamar. A classe social de uma pessoa muda o fato dela demonstrar sua insatisfação com sua sociedade? Não. Mas é fato que quem mora em Guaianazes não consegue participar da manifestação, porque pega 3 horas de trânsito para chegar em casa.

Mas enfim, pessoal. Hoje é dia de futebol na terra do futebol! Que alegria! Por isso quero fechar o post com a opinião muito relevante e politizada de pessoas que ganham um salário justíssimo nesse país maravilhoso de gente tolerante e feliz.

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Publicado em 15/06/2013 por .
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