AnsiaMente

Sobre coisas irritantes e inquietantes

País dos sem-livro

 

Por Carmen Guerreiro

 

Neste domingo, tentamos ir ao último dia da Bienal do Livro, em São Paulo, motivados por um amigo dizendo que, na última edição, ele comprou ótimos livros por menos de dez reais no último dia. Pois bem. Encaramos uma fila do estacionamento e perdemos cerca de 40 minutos dentro do carro até chegar ao guichê de pagamento. Em nenhum momento antes a CET organizava o trânsito ou havia qualquer sinalização que indicasse o preço do estacionamento do evento. Ao chegar na cabine, o susto: 30 REAIS! Ficamos em choque, especialmente porque não gostamos de parar o carro em estacionamentos. Meu marido estendeu seu cartão de crédito relutantemente, e ouviu em troca: “estamos sem sistema, tem que ser dinheiro.” Não tínhamos. “E onde é a saída?” eu emendei, frustrada. Fomos embora e preferi ficar no débito apenas de 40 minutos do nosso domingo.

Ninguém mais acha um absurdo que um casal tenha que pagar R$30 de estacionamento e mais R$24 (R$12 por cabeça), totalizando R$54, apenas para ter acesso à feira? Isso gerou em mim uma revolta. Não basta sermos um país que luta por uma educação de qualidade, mas temos uma indústria editorial que é mais um obstáculo do que um incentivo para que a população leia.

Isso na mesma época em que temos a notícia de que 38%, ou seja, mais do que uma pessoa a cada três, dos estudantes do ensino superior do país são analfabetos funcionais, ou seja, não dominam a escrita e a leitura. Isso só quer dizer o óbvio: que a leitura não é apenas um prazer e uma fonte de conhecimento, mas uma forma de desenvolver uma série de habilidades como lógica, raciocínio e a capacidade de questionar. No mínimo, interpretação de textos e discursos. E como os profissionais egressos das universidades irão se virar sem essas competências?

Voltando à Bienal do Livro: eu sei que o estacionamento e a entrada são de responsabilidade do Anhembi, e que o dinheiro consumido dentro da feira vai para as editoras, e que são empresas diferentes. Mas é tão difícil assim organizar um incentivo para que as pessoas consumam mais livros?

Porque esse não é o único caso de exclusão quando o assunto é acesso aos livros. Quem tem dinheiro nesse país para pagar R$30 ou mais em um tesouro desses? E mais: quantos têm acesso físico a uma livraria, seja por morarem em cidades em que um estabelecimento como esse não se sustentaria comercialmente (por isso são escassos), seja por viverem e trabalharem muito longe de um deles.

O que acabo fazendo? Quando o livro é nacional, peço de presente ou espero um mês menos apertado para comprá-lo. Quando o livro é estrangeiro, acabo  juntando um tanto de volumes e encomendando pela Amazon americana. E, mesmo com o frete internacional, isso sai mais barato do que a versão brasileira do livro. Mas tenho plena consciência de que sou privilegiada e que a maioria dos brasileiros sequer aventariam essa possibilidade.

E mais: a Amazon planejava abrir uma franquia brasileira em setembro, mas os planos já mudaram porque as editoras não querem que ela entre no mercado para vender livros a um preço acessível.

Não me sinto 100% à vontade para falar desse tema, porque não conheço com profundidade o mercado editorial de livros. Mas posso falar como cidadã? É vergonhoso que um país que almeja ser uma potência econômica mundial se recuse a tornar acessível algo tão básico como um LIVRO. Sei que depende das empresas, mas depende também do governo incentivar esse mercado. De uma maneira ou de outra, sei que existe alguma alternativa.

Como nos tornaremos o país que o mundo alimenta a expectativa que sejamos sem democratizar a cultura? Como dar esse passo sem formar leitores autônomos? Com um exército de zumbis telespectadores exclusivos da televisão, receptores passivos, dependentes e fiéis de uma realidade filtrada?

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Publicado em 20/08/2012 por e marcado , , , , , , .
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