AnsiaMente

Sobre coisas irritantes e inquietantes

Ufanismo olímpico

 

Por Carmen Guerreiro

 

É realmente muito legal assistir aos Jogos Olímpicos. Você vê o esforço e a emoção dos atletas, acompanha tensamente o desempenho deles, torce, ocasionalmente se decepciona e sofre com eles. Eu e o marido nos debulhamos em lágrimas no sofá de casa vendo a Sarah Menezes ganhar a luta no judô que lhe rendeu a medalha de ouro. Sei que é clichê falar isso, mas aquele momento de superação é realmente arrebatador.

Mas existe outro lado dessa moeda, que é o ufanismo que as Olimpíadas evocam. Desde criança esse patriotismo exacerbado me incomodou, simplesmente porque sempre pensei logicamente e, para mim, essa devoção à pátria não faz sentido. O que significa uma fronteira, afinal, se supostamente somos todos iguais?

O emocionante da superação no esporte é que representa algo humano, o ato de vencer desafios, de derrubar obstáculos ir além das adversidades, empurrar limites. Isso é muito bonito! E por que somos induzidos a querer achar que isso é bonito só nos brasileiros? Porque os atletas de outras nacionalidades são “feios, bobos e chatos”? Por que temos que torcer contra eles?

Os aros olímpicos não signficam, afinal, a união dos cinco continentes? O bonito das Olimpíadas não é as nações se encontrarem durante alguns dias e competirem nos esportes em pé de igualdade política, social, econômica, racial? É claro que a falta de condições de um país de investir em um esporte acaba refletindo nisso, mas pensem no momento puro e simples em que um jamaicano como o Bolt dispara na frente de um americano, um inglês ou quem quer que seja. Naquele momento, a capacidade de cada um de superar seus limites é o que vence. E é o que importa! Não é lindo ver o Bolt correr? Não é impressionante ver o Phelps nadar? Por que temos que ficar de bico porque não é um brasileiro?

Cada vez mais as fronteiras caem pelo mundo, e a internet é a protagonista desse movimento. É claro que é importante que os povos mantenham suas culturas locais, suas línguas, seus costumes. Mas isso é independente de fronteiras. Não me digam que estabelecer barreiras para um país é o que garante sua “personalidade”. Em nome de fronteiras e hegemonia, muito sangue já foi e é derramado mundo afora. Pergunte aos tibetanos na China, aos Palestinos, aos Curdos, a tantos povos africanos que sofreram com a criação de fronteiras artificiais por seus colonizadores e a tantos outros grupos.

Para mim, o símbolo desse ufanismo irritante no esporte é o Galvão Bueno. É péssima a maneira como ele exalta os brasileiros e rebaixa os outros, como se o esforço, trajetória e capacidade deles fossem menores porque são diferentes, porque não são brasileiros. Para mim, isso é a intolerância refletida no esporte. Durante a cerimônia de abertura (mas quando descobri que também estava passando em outro canal da TV a cabo, mudei rapidinho) o Galvão falou os maiores impropérios, como dizer que não conhecia a Micronésia nem o Palau e duvidava que alguém já tivesse ouvido falar. Você não precisa saber a localização geográfica exata desses lugares, mas espera aí, não é muita arrogância afirmar a milhões de pessoas que esses dois locais são tão insignificantes que provavelmente ninguém nunca ouviu falar o nome deles? Outra besteira desse glorioso apresentador foi comentar, em vários momentos da cerimônia de abertura, que no Brasil ia ser bem melhor. Como se aquilo não tivesse valor. Como se achar bonito o que foi feito em Londres fizesse de você um brasileiro menos digno. Precisa comparar os dois?

Galvão é apenas um exemplo de inúmeros apresentadores e comentaristas que ficam não só glorificando os atletas brasileiros (sou a favor de apoiá-los, sim, mas não dessa forma) como criando uma enorme pressão e expectativa sobre eles que resulta no seguinte: se o brasileiro não ganha ouro, é uma grande decepção para o país. O que é isso, gente? Devemos xingar o Cielo porque ele “só conseguiu” bronze? É um absurdo que um atleta chore e fique abalado como ele ficou, sentindo que decepcionou o país, porque se classificou em terceiro lugar. Talvez ele pudesse ter sido melhor, e de fato teria sido muito legal se ele tivesse alcançado o seu objetivo. Mas para que crucificá-lo? Para “trazer um ouro pro Brasil”? O que isso significa?

Para mim, patriotismo é coisa do passado e já comprovou trazer mais tragédias do que benefícios para um povo. Temos que pensar no que nos une como seres humanos, e não naquilo que nos separa. Isso só gera um ódio sem sentido, em nome de algo invisível. Esse é um dos motivos pelos quais não canto o hino nacional. Sei que isso parece meio extremo, mas não é porque não chega a ser um princípio, é só uma questão de não ver sentido algum em cantar uma música cuja letra não me remete a qualquer coisa a se ter orgulho, e glorificando um momento totalmente vazio de significado para mim. Não quero que seja algo automático e mecânico, então prefiro não cantar.

Enfim, sou a favor de torcer pelos brasileiros nas Olimpíadas sim, mas no sentido de incentivar esses atletas a superarem desafios, e não de trazer o ouro custe o que custar. Nesse processo, também quero ver brilhar atletas de todos os países, mostrando a beleza que é (ou pode ser) ser um humano, e não um patriota intolerante.

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