AnsiaMente

Sobre coisas irritantes e inquietantes

Não sabe? Procura no Google. Hein?

 

Por Carmen Guerreiro

 

Ontem, no metrô, eu estava sentada próxima a um pai e seu filho, que deveria ter seus 12 anos mais ou menos. O pai estava carrancudo, de braços cruzados. E o menino, super interessado no metrô, analisava atentamente o mapa das linhas.

“Pai, em qual estação termina a linha amarela?”, ele perguntou, animado. Foi ignorado pelo pai. Sem se deixar abalar, o garoto levantou para tentar ler o nome da estação.

“Senta aí!”, o pai repreendeu. “É Butantã”, grunhiu.

“Butan… quê?”

“BUTANTÃ!”, respondeu o homem, irritado.

O garoto continuou olhando a sua volta, vendo graça e se interessando por pequenas coisas. Depois voltou-se novamente para o pai.

“E o que é Butantã?”

“Não faz essa pergunta pra mim. Você vai lá no ‘seu Google’ e procura, em vez de ficar jogando ‘fazendinha’.”

Silêncio até o fim da viagem.

Ok, eu já ouvi diversas vezes as pessoas falando umas para as outras “procura no Google” e, sinceramente, muitas vezes é engraçado e merecido (outras vezes, só grosseiro e gratuito mesmo). Mas para o próprio filho?

Certo, eu não tenho todas as informações para julgar a situação: não sei se o menino fez alguma coisa (e isso justificaria a atitude? não sei), se o homem estava irritado por outro motivo e normalmente não é assim. Mas eu vou com a probabilidade, porque o garoto parecia estar acostumado com aquele tratamento. Filho serve para o que, para esse homem? Encher o saco?

E não é só ele (e por isso fiz o post). É certamente claro para qualquer um interessado em observar as pessoas por aí que muitas, mas MUITAS delas não deveriam ter sido pais e mães. E ai de quem vier com o famoso “o filho é meu e eu crio como eu quiser”. Não. O filho não é seu, porque não é um objeto, é uma pessoa sob a sua responsabildiade. E sua responsabildiade é justamente contribuir para a formação desse filho como cidadão que faz parte de uma sociedade. Então é da conta de todo mundo, sim, que vai arcar com as consequências da má educação que você deu.

E pessoas em formação fazem perguntas, se interessam pelo mundo, têm questões e precisam de apoio. Seu maior porto seguro são seus pais. E por que negar isso a eles? Porque eles te “enchem o saco”? Porque você teve um dia cheio no trabalho e está sem paciência? Se não estivesse apto para o trabalho, não tivesse o filho (ok, eu sei que grande parte das pessoas no mundo foi um acidente, mas enfim…). Ninguém está aqui dizendo que os filhos devem ser mimados e atendidos em todas as suas solicitações. Nem que os pais não têm o direito de, de vez em quando, estar em um dia ruim e perder a paciência. Mas deveriam se olhar de fora e entender a profundidade da sua atitude como pai/mãe.

Mandar o filho procurar uma dúvida no Google é praticamente um “pede para sair” de um pai. É desistir de ser a referência, para ser apenas o gerador biológico. É podar desde cedo algo precioso, que é o espírito questionador e curioso da criança, como bem comentou um amigo meu. Mas quando esse menino crescer, é bem capaz desse pai, como vejo muito por aí (especialmente com mães) se sentir injustiçado pelo distanciamento do filho. Por que ele não liga? Por que não me conta as coisas? Por que me maltrata? Por que ele age assim ou assado? Às vezes (a maioria delas), para encontrar a resposta basta parar, olhar para o outro, olhar para si mesmo e tirar as conclusões. Parece simples, né? Mas no mundo em que o bom senso “pediu para sair”, não é simples não.

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Publicado em 13/07/2012 por .
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